segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Dixielands em Praga

Banda Dixieland na ponte Karlov Most - Praga (República Tcheca)

Pela sua liberdade de linguagem, estrutura e musicalidade, atualmente o jazz possui caráter universal. É interessante notar as formas específicas que este gênero assume em cada parte do mundo, justamente pela sua flexibilidade em incorporar acentos culturais peculiares de cada região.

Sendo assim, é possível encontrar uma formação de Dixieland Band em pleno leste europeu, como neste caso em Praga, capital tcheca. O estilo de jazz chamado Dixieland nasceu em New Orlears (EUA) no começo do século XX e teve como um de seus principais representantes o eterno músico Louis Armstrong. A sua formação instrumental é geralmente composta por banjo, contra-baixo acústico, bateria, piano e uma seção de sopros (trompete, clarinete, trombone e tuba). Em Praga existem vários grupos e músicos de rua onde, andando pelas praças, pontes e ruas centrais, encontra-se uma musicalidade muito atraente. Velhinhos debulhando saxofones e várias bandinhas ao estilo Dixieland.

Saxofonista tcheco nas ruas de Praga

O ritmo do jazz desfilando pelas ruas de Praga, num país que viveu por décadas sob a égide soviética comunista, inicialmente soa como algo estranho ou fora de lugar. Para muitos até seria o reflexo da abertura ao mundo capitalista de influência direta dos valores norte-americanos. Sim, de fato os EUA difundem seus valores diluídos nos símbolos culturais que exportam ao mundo. Como pensar, então, que um gênero tão livre e universal, criado por negros afro-americanos possa ser uma ferramente imperialista? Seria apenas influência ideológica ou a linguagem musical é contagiante a despeito de qualquer inclinação política?

Contra-baixista

Talvez um indício para as respostas destas perguntas seja o exemplo do tcheco Antonín Dvorák (1841-1904). Este compositor clássico, que atuou no período de plena afirmação de valores nacionalistas, difundiu como ninguém os valores folclóricos eslavos em sua obra. Não obstante, abriu-se aos idiomas sonoros da América, o que resultou na composição de obras célebres como a Sinfonia n.9 (1893), mais conhecida como Sinfonia do Novo Mundo, na qual Dvorák abrangeu elementos da música popular norte-americana. Tudo isso muito antes da Revolução Russa, da ascenção dos EUA como potência hegemônica, da II Guerra Mundial e da disputa ideológica entre capitalismo e comunismo durante os anos de Guerra Fria.


VIDEO: Banda Dixieland em Praga - MÚSICA: "You are my sunshine"

Fotos e vídeo: Márcio Guerreiro

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Um Violeiro Toca


Durante a Feira Sustentável de Florianópolis, um evento que agrupou e discutiu temas como agricultura familiar, reforma agrária, economia solidária, pesca e energias renováveis, tivemos a apresentação de Almir Sater. Num show caloroso e com muita receptividade do público, em sua maioria identificado com os temas da feira e, portanto, com toda a mensagem de valores de vida e terra presentes nas canções do violeiro sul mato-grossense.
Os grandes clássicos como "Chalana", "Um Violeiro Toca", "Trem do Pantanal", Tocando em Frente" e "Peão", composições muito representativas de sua carreira, não faltaram no show.
Nesta ocasião, Almir Sater concedeu entrevista exclusiva ao Blog Pente Fino Musical:
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PFM: É possível traçar um panorama atual do papel e da difusão da viola caipira no Brasil?
Almir Sater: A viola caipira é um instrumento que está bastante vivo na cultura popular. Embora não tenha difusão nos meios de comunicação de massa, continua sendo um instrumento muito representativo da cultura brasileira. Por várias regiões é possível encontrar praticantes amadores e músicos profissionais.
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PFM: Você vem de uma região geograficamente e culturalmente muito ligada aos países vizinhos como Bolívia e Paraguai. Como é esta interação cultural, especialmente no caso da música popular e os ritmos de fronteira?
Almir Sater: No Mato Grosso do Sul se ouvia muita música paraguaia, principalmente guarânias e polcas, ritmos que influenciaram muito a música regional do centro-oeste. Lembro que todo o contato com essa música era através de apresentações ao vivo. Já o caso da Bolívia foi posterior, pois a tradição do altiplano andino está mais distante da fronteira. Mesmo assim houve influência, como as músicas tocadas com charango por exemplo.
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PFM: Como você conheceu o grande violeiro Tião Carreiro?
Almir Sater: Foi num antigo festival da Record. Disse a ele que também tocava viola, ficamos amigos e assim Tião foi um grande mestre para mim.
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PFM: Atualmente ainda é possível conciliar a vida profissional vivendo longe dos grandes centros? Você ainda mora no campo?
Almir Sater: Hoje, com os filhos em idade escolar e também por questões profissionais, vivo na Serra da Cantareira, próximo à capital paulista.
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PFM: Seus filhos também seguem o caminho da música?
Almir Sater: Sim, eles até já formaram uma banda de rock, aliás, eu também sempre digo que sou roqueiro. Não me identifico com o que atualmente se chama de sertanejo no Brasil. Acho que uma viola ponteada soa muito mais rock'n roll, com toda aquela pegada forte, bem brasileira. Digo que não sou sertanejo mas também não tenho uma classificação para minha música, tenho muitas influências, que passam pelos ritmos paraguaios, andinos e o folk americano.
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PFM: E seus pais e avós também estavam ligados à música?
Almir Sater: Não, eles queriam mesmo é que a gente trabalhasse (risos). Na época os músicos não eram muito bem vistos e eu, de cabelos compridos tocando violão, era um afronta. Então aos 20 anos me mudei para o Rio de Janeiro e fui estudar Direito, mas aí conheci a viola caipira, nunca mais me separei dela e logo desisti da carreira de advogado.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Projeto Nação Balanço: Circulando 2009

Nação Balanço é um encontro de culturas, cores e ritmos brasileiros e afro-americanos. No projeto, idealizado pelo DJ Marcelo Pimenta, o samba-rock encontra o maracatu, o soul, o funk’70, o reggae, o samba de raíz, o hip-hop latino e a blaxploitation. O Nação Balanço tem uma proposta de mesclar a música dos anos 60 e 70 às sonoridades contemporâneas que nasceram desta fonte. O DJ Marcelo Pimenta é o mestre de cerimônias da festa.
O projeto conta com o menestrel Sr. Pilantragem para recepcionar o público e animar a festa, que preparou uma decoração móvel feita de material reciclável. Outra novidade do NB é a "Hora Experimental", que abre espaço para bandas novas, sons desconhecidos, performances teatrais. A "Hora Experimental" também pode ser temática, em forma de homenagem a grandes músicos ou movimentos e estilos específicos.
Alguns especiais NB: Circo; Toca Raul! (homenagem ao dia do rock); Copa do Mundo; Sacundin sacunden (Jorge Benjor); Festa Junina; Para Todos (Chico Buarque); Sérgio Mendes e Brasil´66; Sons do Mangue; Novos Baianos; Tim Maia; Wilson Simonal; Chico Science e outros.
Nas festas do NB, o espaço dado a artistas independentes é uma das maneiras que o NB encontrou de divulgar e incentivar a cultura local. Músicos, grupos de teatro, performers têm espaço garantido nos eventos da NB.
Através do site www.nacaobalanco.com.br você encontra programação dos eventos do projeto.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Honduras mais além de crises políticas

Guillermo Anderson (2° esq. para dir.) e músicos hondurenhos
A pouca informação que temos de países como Honduras ou qualquer outro da região, nos faz acreditar que eles sejam meras "repúblicas de bananas". Pela barreira que sofremos dos meios de comunicação, ou simplesmente por falta de interesse em questões mais amplas, estas nações só ficam em evidência diante de crises políticas ou catástrofes naturais.
Por isso, muitos brasileiros não sabem localizar Honduras no mapa e, muito menos, identificar alguma característica deste pequeno país que, por trás de crises e do grande bigode de Zelaya esconde muitas riquezas.
De fato, o país teve uma história permanentemente conturbada. Após a independência, Honduras conviveu com a alternância de presidentes civis e militares, impostos por golpes de estado. Ainda no século XIX, começou a sofrer forte influência dos EUA, que instalaram empresas para explorar a produção de frutas. A partir daí, os americanos passaram a controlar politicamente a região, conforme os interesses de suas empresas. Houve revoltas populares que eram sempre abafadas pelos EUA, que apoiavam os regimes ditatoriais, sempre coniventes com seus interesses. Durante os anos 80, o país foi forçado a servir como base para o exército americano na guerra dos Contra, quando os EUA combatiam o regime sandinista da vizinha Nicarágua, conflito que estendeu-se até 1989.
Atualmente o país ainda é bastante pobre e sua economia é baseada majoritariamente na agricultura. Porém, sua riqueza cultural começa pelo seu legado Maia, com forte presença na parte oeste do território, na região de Copán, onde há um grande sítio arqueológico com pirâmides, túneis e estelas (totens maias) esculpidos na rocha. Estas construções datam do século IV, sendo que Copán foi por muitos anos um dos mais importantes centros governamentais e cerimoniais da civilização Maia.
Honduras conta ainda com outros segredos como as Bay Islands, ilhas paradisíacas no mar do caribe, além da região interiorana de Danlí, que produz excelentes folhas de tabaco que resultam em ótimos charutos.
Já na sua literatura, destacam-se o poeta Juán Ramón Molina, o contista e romancista Froilán Turcios e seu letrado mais famoso, o historiador, poeta e jornalista Rafael Heliodos Valle.
A música hondurenha é um punhado de misturas que reflete a variedade étnica do país. Há influências da Europa, mais especificamente ibérica, devido à colonização espanhola, também influências indígenas, pelos vários grupos que compunham e ainda compoem o território e finalmente influências garífunas, um grupo étnico-cultural que habita a costa atlântica de alguns países da América Central e do Caribe. Este povo é descendente de escravos africanos submetidos à colonização britânica na região.
O trabalho contemporâneo do músico hondurenho Guillermo Anderson é uma boa síntese desta mescla cultural. Suas letras falam sobre situações e tipos sociais característicos, além de temas que mostram forte relação com o mar e a natureza. Já as melodias alternam-se em reggae, baladas e ritmos caribenhos, com influências garífunas e forte acento centro-americano.
É possível entrar em contato com esse novo universo musical pela página de Guillermo (www.myspace.com/guillermoanderson), com destaque para as composições "Pobre Marinero", um animado reggae; "El Encarguito", singelo e bem-humorado caso da relação com os hondurenhos emigrados aos EUA e "En Mi País", uma homenagem ao povo e à natureza de Honduras.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Si Se Calla el Cantor, Calla la Vida

Mercedes Sosa era uma artista rara, principalmente em relação às últimas duas décadas, em que a canção perdeu seu caráter de protesto, contestação e transformação social. Aliando suas raízes folclóricas, sua intensa musicalidade, o canto aguerrido e a atitude de luta e representação dos povos latino-americanos, Mercedes transcendeu o limite de ser simplesmente uma cantora, passando a ser um ícone da cultura e história da América Latina.

Já na edição de seus dois primeiros discos, deixava claro que não estava cantando sem propósito, pelo que se comprova de imediato nos títulos dos referidos discos: "Canciones con Fundamento" (1965) e "Yo No Canto Por Cantar" (1966), que trazem composições que revelam o íntimo da idiossincrasia e dos anseios de liberdade do homem trabalhador do campo, das províncias de substrato indígena do noroeste da Argentina como Jujuy, Salta, Catamarca, Santiago del Estero, Chaco e sua província natal, Tucumán.

O canto de Mercedes Sosa espalhou-se desta região para todo o continente, pelo fato de os povos dos demais países notarem identificação nas mesmas causas e anseios que se arrolavam em suas canções, ou seja, a mesma injustiça e opressão presente em sua região de origem, era comum aos outros países, justamente pelos seus processos históricos tão semelhantes.

Vieram então os anos mais sombrios, com a imposição de ditaduras pela América Latina. Em 1979, no auge da repressão na Argentina, foi presa durante uma apresentação na cidade de La Plata e exilada do país.

Após seu regresso em 1982 e terminada a ditadura em 1983, ainda que houvesse sido reestabelecida a democracia, Mercedes nunca deixou de evidenciar as questões políticas, sociais e de direitos humanos que marcaram cada década através de sua música.
O senso de unidade e integração da América Latina sempre esteve presente em sua vida e trabalho, pois desde o início gravava compositores de diversos países como Violeta Parra (Chile), Alfredo Zitarrosa (Uruguay), Daniel Viglietti (Uruguay), Sílvio Rodríguez (Cuba), Pablo Milanés (Cuba), sem contar os vários compositores de seu país como Atahualpa Yupanqui, Ariel Ramírez, Félix Luna, Gustavo Leguizamón, Horácio Guarany, León Gieco, Victor Heredia, Teresa Parodi, Tejada Gomez, Cesar Isella e tantos outros autores argentinos. A partir dos anos 80, incorporou ao seu repertório algumas composições de artistas de outras vertentes não folclóricas como Charly García e Fito Páez, além de gravar com artistas ligados ao tango, como Rodolfo Mederos e Leopoldo Federico. Ficava evidente que Mercedes já postulava uma abrangência e versatilidade de repertório e parcerias que a condicionasse a dialogar com outros gêneros musicais de maneira íntima e original em sua posição de grande intérprete.

Em relação ao Brasil, sua aproximação com artistas brasileiros foi pioneira e de grande valor para que as barreiras culturais insólitas que nos separam até hoje dos países vizinhos começassem a desvelar uma fresta pela qual fosse possível uma importante troca cultural. Fruto desta iniciativa foram trabalhos conjuntos com Milton Nascimento, Chico Buarque, Gal Costa, Fagner, Beth Carvalho, Caetano Veloso, Vitor Ramil, Luis Carlos Borges e outros. Ainda assim, infelizmente, o Brasil aprisiona-se na grandeza da própria música brasileira e insiste em voltar-se pra dentro ou para a música estrangeira cantada somente em inglês.

Especificamente como cantora, foi brilhante, pela voz imensa, profunda e a grande carga emotiva com que interpretava. Foi reconhecida internacionalmente, realizando turnês pelos mais diversos países, chegando aos palcos mais concorridos do mundo, como o Lincoln Center (EUA), Carnegie Hall (EUA), Morgador de Paris e até no Vaticano.

O legado de Mercedes é de grande importância e ultrapassa a simples herança do que foi uma grande cantora. Deixa em nossa memória o poder de mobilização e atitude capazes de serem expressos na música, coisa que poucos artistas atuais conseguem ou pretendem conciliar em seus trabalhos. O senso de justiça social, direitos humanos, integração dos povos e a luta pela liberdade foram a bandeira sobre sua música. Certamente seu desejo é que de agora em diante possamos contar com sucessores que não a deixem parar de tremular.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Rita Lee: 40 anos de rock

Carregando o estandarte de 40 anos de carreira dedicados ao rock brasileiro, Rita Lee traz a Florianópolis seu mais recente show, recheado de sucessos que, aliás, são tantos que só caberiam todos numa apresentação de várias horas de passeio pelo seu ecletismo e criatividade musical.
Seu título de rainha do rock ultrapassa as fronteiras deste estilo e desfila também por bossas, baladas românticas, canções irônicas e outras invenções. E não podia ser diferente, pois bebendo na fonte do tropicalismo, em época de ebulição sonora tanto na música brasileira como estrangeira, Rita assimilou distintas influências criando um estilo próprio e particularmente brasileiro de compor e tocar rock.
Através dos Mutantes, quando fizeram sua primeira apresentação no III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record em 1967, acompanhando Gilberto Gil na música “Domingo no Parque”, Rita já demonstrava seu espírito de vanguarda e transformação.
O movimento tropicalista com Caetano, Gil, Gal, Tom Zé; o rock inglês dos Beatles, Rolling Stones, The Who; o rock norte-americano, de Elvis e Chuck Berry a Jimmi Hendrix e Janis Joplin; a bossa nova e a música brasileira em geral, foram alguns dos principais componentes que desaguaram no jeito Rita Lee de fazer música. Mais tarde, em carreira solo, suas parcerias com Roberto de Carvalho resultaram em hits presentes no imaginário de qualquer pessoa, independente de faixa etária e gosto musical.
O roteiro do show traz sucessos de todas as fases de sua carreira com lugar cativo no gosto do público, além de músicas que há bastante tempo não canta ao vivo, como "Bwana"(que ganhou nova versão: "Obama"), "Cor de Rosa Choque", a novíssima "Tão" e as releituras da clássica "Baby", de Caetano Veloso, da divertida "Vingativa", das Frenéticas, e "I wanna hold your hand", dos Beatles, que recebe versão intitulada "O bode e a cabra", e vem vestida de forró.
No palco, Rita está acompanhada das guitarras e vocais de Roberto de Carvalho e Beto Lee, Brenno di Napoli no baixo, Edu Salvitti na bateria, Danilo Santana nos teclados, Débora Reis e Rita Kfouri nos vocais.

RITA LEE no show MULTISHOW AO VIVO
Dia 03 de Outubro
Floripa Music Hall – 22 h
Informações: (48)3222-8416

Parque do Vassourão: Cidadania e Cultura

Na edição passada do Jornal da Lagoa, foi veiculada a importante matéria sobre a possibilidade de construção do Parque do Vassourão. Este é um projeto que traria grandes benefícios de maneira geral, tanto para os moradores da Lagoa, de outros bairros e também visitantes de fora da cidade.
Um dos apelos para a construção do espaço, além dos já citados na última edição, seria a possibilidade de utilizar uma parte da área para atividades culturais como apresentações de música, teatro e dança. Com a decadência da pracinha Bento Silvério, o bairro está com raras alternativas de lugares para esse tipo de atividade.
O projeto do parque vem ao encontro de outra idéia defendida nesta coluna anteriormente: a da organização de um festival de música e cultura com maior porte.
A cultura, como meio de expressão popular, precisa de espaços públicos para manifestar-se. Em Florianópolis, e especialmente na Lagoa da Conceição, estas áreas são limitadas e escassas, sendo que a sobreposição do espaço privado em detrimento do público é cada vez mais freqüente. A viabilização do parque seria uma grande conquista para a cidadania.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Vanessa da Mata - Perfumes do Sim em Florianópolis

Ela já foi jogadora de basquete, modelo e queria estudar medicina. No entanto, desde sempre teve a convicção da presença da música em sua vida quando, ainda criança, escutava os sons regionais e outros que ecoavam pelas ondas do rádio na sua longínqua cidade de Alto Garças, no Mato Grosso.
Vanessa da Mata firmou-se no cenário atual da música brasileira como uma das melhores cantoras de seu tempo, embora seu caminho tenha sido marcado por superações. No início, apesar da voz ainda insegura, já mostrava presença e personalidade. Hoje, Vanessa é tecnicamente madura, com uma voz límpida e afinada. Também destaca-se cada vez mais como compositora.
O show 'Perfumes do Sim', apresentado em Florianópolis no dia 18/09, foi a oportunidade para conferir tudo isso, num bom arranjo de um apanhado das melhores canções de seus três discos. A noite foi marcada, logo de início, pela presença de um bonito cenário, composto de galhos e flores com diferentes oscilações de cor e luminosidade. Sem dúvida, um detalhe bastante importante pois geralmente os shows que entram em turnê fora dos principais eixos culturais do país, não suportam o traslado de cenários, o que deixa a apresentação incompleta e mais vazia.
A divisão da platéia entre setor de mesas (em frente ao palco) e pista (ao fundo) tiraram um pouco da vibração do show, pois o primeiro setor parecia uma lacuna entre Vanessa e a energia do público da pista. Porém, o excelente repertório, o cenário e a qualidade dos músicos da banda, com destaque para Donatinho (teclados) e Alberto Continentino (baixo), fizeram valer a apresentação, em que não faltaram "Ainda Bem", "Ai, Ai, Ai", "Eu Sou Neguinha", "Joãozinho" e "Boa Sorte".

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Um Beirut recheado de influências

Baseada em impensáveis misturas de ritmos, a música do grupo Beirut extrapola as fronteiras e condensa estilos como se fosse um balão de ensaio. Liderada por Zach Condon, de Santa Fé (Novo México - EUA), a banda traz elementos da música tradicional mexicana, evidentes no trabalho March of the Zapotec (2009); elementos da música cigana do leste europeu (região dos Balcãs), presentes no álbum Gulag Orkestar (2006) e até referências da chanson française.
O grupo, que recentemente esteve no Brasil para algumas apresentações, mostrou ter mais pujança sonora em seus discos e menos rendimento nos shows, haja vista a monótona e às vezes desengonçada fluência musical destas performances ao vivo. Na apresentação de São Paulo a qualidade técnica do som não ajudou, ainda que o grau etílico de Zach estivesse mais moderado que na ocasião do show de Salvador.
Ainda assim, a Beirut conseguiu dar o seu recado nesta pequena turnê brasileira, provando que é uma miscelânia muito criativa e interessante no que se refere a fusões de estilos aparentemente tão desconexos e incopatíveis.
Para ter uma noção do trabalho pitoresco da Beirut acessem: www.myspace.com/beirut ou o site oficial do grupo http://www.beirut.com/

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Noite Flamenca no Ciclo Guitarrísimo

Em prosseguimento ao ciclo de apresentações de artistas e expressões culturais hispânicas, o Instituto Cervantes de Florianópolis promoveu espetáculo de Flamenco nesta última terça-feira (08/09), no Teatro Álvaro de Carvalho.
O Flamenco é uma arte secular que caracteriza a cultura espanhola mas que, de fato, remete a um antigo processo de embates étnicos entre povos ciganos, mouros e judeus que habitavam a parte sul da Península Ibérica, especificamente a região da Andaluzia, que esteve sob controle e influência moura muçulmana por sete séculos. Após a reconquista católica ao final do século XV, este substrato cultural, produto destes períodos anteriores, permaneceu vivo assim como a arte flamenca, ainda que enfrentando a resistência da nova ordem cristã.
O trio da apresentação foi composto por Flávio Rodrigues (guitarra flamenca), Pedro Obregón (canto) e Talita Sanchez (baile). No primeiro ato esteve mais presente o toque da guitarra de Flávio que, apesar de brasileiro, mostrou domínio da técnica flamenca ao instrumento, embora houvesse a falta de evidência da alma cigana que não lhe era inerente.
O segundo ato esteve acrescido do canto de Obregón, interpretando temas de Sevilha, Málaga e sua terra natal, Córdoba. A bailarina Talita exibiu-se em atuação profunda e marcante, assim como é característico do Flamenco, e levantou o público que lotava o teatro numa terça-feira chuvosa.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A Dama do Caribe em novo disco

Cuba é a menor porção de terra que produz a maior quantidade de verdadeiros artistas, como é o caso de Omara Portuondo, que continua em plena forma vocal aos 78 anos de idade e 60 anos de carreira, atravessando todas as variantes históricas da conturbada ilha dos irmãos Castro. Seu último disco, Gracias, é maravilhosamente arranjado, ao mesmo tempo sutil, leve e profundo. Neste trabalho não é tão acentuada a presença do característico son cubano e dos boleros que marcam fortemente seus discos anteriores.
Assim mesmo, Omara mostra-se igualmente sentimental ao interpretar este repertório mais baseado na canción ou trova, como se vê nas antológicas Ámame Como Soy e Rabo de Nube, respectivamente de autoria dos dois maiores compositores da canção da trova cubana, Pablo Milanés e Sílvio Rodríguez.
Depois do belo disco que lançou em dueto com Maria Bethânia, a cubana continuou próxima da música brasileira, ao gravar O Que Será, com participação de Chico Buarque.
Outros destaques ficam por conta de Cachita, gravada à capela com sua neta de 9 anos; Gracias, faixa título composta pelo uruguaio Jorge Drexler e o clássico lúdico Drume Negrita, do cubano Ernesto Grenet. E aos que não podem ouvi-la sem que entoe um bolero, está presente Lo Que Me Queda Por Vivir, de Alberto Vera Morua.
Chegar aos 78 anos com esta grande sensibilidade e coesão artística não é para muitos. Omara é destas que prova que estes valores são atemporais, e que sua voz e estas canções são como pares eternos.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O poder de escolha do público

A música popular constituía-se como representação originalmente popular, ou seja, criada e exercida pelo próprio povo, até as primeiras décadas do século XX. Foi a partir daí, com o advento dos primeiros meios de gravação em cilindro e logo depois em discos, que as expressões e movimentos musicais passaram a ser comercializados e, portanto, direcionados como um negócio, perdendo o caráter estritamente popular de criação e audiência.
Não que esta mudança tenha tirado a qualidade e a autenticidade dos artistas e suas composições, mas é evidente que a partir deste ponto a produção musical passou a ser marcada por questões comerciais e direcionada ao público em forma de consumidores, e não como foco cultural da música popular.
Estava então iniciado o longo período de domínio da produção musical pelas grandes gravadoras, o que em inúmeros casos foi de resultado positivo, haja vista a enorme quantidade de grandes compositores, músicos e intérpretes que marcaram a história da MPB através das décadas. Porém, este viés comercial apregoado pelas gravadoras tornou-se insustentável a partir de meados da década de 80, culminando na exploração comercial sufocante através de produtos musicais de apelo excessivo como o axé, falsos sertanejos, grupos de pagode e outros oportunismos musicais que adentraram pelos anos 90 até os dias atuais, salvo algumas boas exceções.
Como tudo que é exaustivamente explorado se esgota, o que estamos vendo nestes últimos anos é a derrocada das grandes gravadoras, que perdem cada vez mais mercado para as novas alternativas independentes de produção e divulgação musical. Portanto, o cenário aos poucos se inverte, sendo que o público volta a ter a capacidade de discernir e fazer suas próprias escolhas dentre inúmeras opções musicais, multiplicadas pela ferramenta digital da internet, livrando-se aos poucos do dirigismo de consumo ditado pelas gravadoras.
A questão agora é a recuperação deste discernimento próprio do público, que esteve encoberto pela manipulação de suas escolhas por décadas. Apesar da liberdade, esta tarefa não é fácil, pois ao mesmo tempo em que se multiplicaram os meios de produção e divulgação, também cresceu o número de aventureiros digitais sem qualidade artística.
A nova “democracia musical” atravessa um período de adaptação, e se formos tomar como paralelo a democracia política, veremos que o processo é lento, pois já se vão 20 anos de liberdade política e ainda assim topamos com a influência do que há de mais retrógrado, o patriarcalismo oligarca escondido atrás de bigodes tintos que seguem dando as cartas no país.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Les Paul, o pioneiro da guitarra

Morreu ontem, aos 94 anos, um dos mais influentes músicos do século XX, o guitarrista e criador de técnicas e instrumentos musicais, Les Paul.
A história do modelo de guitarra mundialmente conhecido, a Gibson Les Paul, surge a partir da criatividade incansável deste músico que desde a juventude fabricava seus próprios instrumentos, experimentando novas sonoridades e timbres. A consolidação da guitarra elétrica na trajetória musical do século passado é, portanto, estritamente ligada às invenções de Les Paul.
Nomes como Jimmy Page, Jeff Beck, George Harrison, Gary Moore, Pete Townshend e David Gilmour, ao explorarem a sonoridade do instrumento de Les Paul, escreveram passagens memoráveis da história do rock e, sem dúvida, muitos nomes atuais continuarão escrevendo outros capítulos através das lendárias guitarras de Les Paul.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Shows como artigo de luxo

Impossível não notar e se impressionar com a escalada dos preços de ingressos para shows de artistas populares e outras atrações culturais em Florianópolis. Isto é uma prova de que a cultura, ao invés de se tornar cada vez mais democratizada e acessível, parece hoje um bem de consumo de luxo, destinado a uma pequena elite que se dispõe a pagar entradas de valores exorbitantes, excluindo e privando todas as outras camadas da sociedade.
Apenas para ilustrar o assunto em questão, atualmente a maioria dos shows nacionais tem valor de ingresso acima dos R$ 100,00, sendo que muitos deles chegam a quase R$ 200,00.
Sabemos que são altos os custos de produção de apresentações como estas e que os produtores se acotovelam e trabalham duro na busca de apoiadores, patrocinadores e leis de incentivo que viabilizem os eventos. Muitos shows nacionais, entretanto, já chegam com grande parte dos custos fechados por patrocínios de turnês que cobrem todo país, alguns até viabilizados através de leis de incentivo, mas mesmo assim o valor do ingresso é altíssimo. Será que não há um abuso na prática destes valores, gerando uma falta de comprometimento com o desenvolvimento da cultura na cidade?
Alguns pontos de justificativa para esta questão são apontados pelos produtores como a falta de salas de maior capacidade, a defasagem gerada pela concessão de meia-entrada e os já citados custos de produção. Olhando para estes argumentos, vemos que Florianópolis de fato carece de salas maiores (ao menos 3 mil pessoas), o que possibilitaria a divisão da platéia em setores com diferentes preços, proporcionando ingressos de todos os valores de acordo com a localização. Com relação à meia-entrada, os produtores alegam grande perda de margem e por isso, o aumento dos preços. Porém, tomando como exemplo um show que custe R$ 180,00, a meia sairia por R$ 90,00, preço ainda extremamente incompatível com a capacidade do público estudante e idoso, além de ser também inviável para a maioria do público que não está beneficiado pela meia-entrada.
Seria até compreensível se valores de ingresso como estes fossem para uma atração erudita como um ballet russo ou artistas de peso mundial, mas estamos falando de artistas de música popular brasileira, que constroem nossa cultura e representam toda a sociedade. Estes preços de entrada acabam por excluir a maior parte desta mesma sociedade, que não pode se enxergar sob forma de arte popular e, portanto, pública.

sábado, 8 de agosto de 2009

Blues até na sarjeta

NUNO MINDELIS - Foto: Emerson Sodré
O bluseiro Nuno Mindelis tocou no John Bull Pub nesta última quarta-feira (05/08) levantando o público com suas já conhecidas performances de guitarra. O músico, nascido em Cabinda (Angola) e radicado no Brasil desde 1976, é um dos principais nomes do blues nacional e também é reconhecido internacionalmente. O guitarrista apresentou músicas de toda carreira, mas o destaque ficou para os temas de seus dois melhores discos, o “Texas Bound” (1996) e o “Blues on the Outside” (2000), ambos gravados com a Double Trouble, banda que acompanhava o grande guitarrista texano Stevie Ray Vaughan. No repertório também não faltaram as clássicas “Wind Cries Mary” e “Hey Joe”, imortalizadas por Jimmi Hendrix.
Numa noite em que o frio deu uma trégua, houve até solos de guitarra pela avenida das rendeiras, quando no meio do show, Nuno desceu do palco, atravessou as mesas e saiu pra tocar na calçada. O blues tem dessas!

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Noite de gigantes


Em noite especial, pelo privilégio de ver reunidos músicos de calibre internacional como Alegre Corrêa e Guinha Ramires sob o carisma e talento do anfitrião Alessandro Kramer, o Teatro Álvaro de Carvalho foi palco para estes três gigantes da musica instrumental brasileira nesta última sexta-feira (31/07/09).
Num show descontraído e musicalmente denso, Kramer tocou composições próprias e também de seus parceiros de palco. Destaque ainda para uma composição de Luiz Carlos Borges, acordeonista gaúcho que foi sua maior influência desde a infância.
A música de Alessandro Kramer é uma síntese de ritmos que irradiam e se convergem pela sua fronteira inicial que parte do Rio Grande do Sul e abrange ainda a região argentina, uruguaia e paraguaia, sem contar as suas influências posteriores que lançam atenções aos ritmos brasileiros de outras regiões, notadas pela presença de aspectos estéticos de Tom Jobim e Hermeto Pascoal, por exemplo.
O resultado desta síntese rítmica é uma densa e profunda sonoridade que evoca a milonga, o tango, o chamamé, o xote, o jazz e tudo mais que possa compreender esta formação musical local que se expande de tal forma que passa a assumir uma face universal.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Cidadão Samba

Passista, compositor, instrumentista, intérprete e estudioso do samba, Oswaldinho da Cuíca é uma figura emblemática da música brasileira e do samba paulistano. Aos 69 anos de vida e muita chinfra, ele revela passagens de sua biografia no documentário "Oswaldinho da Cuíca: Cidadão do Samba" (2008), produzido por Toni Nogueira, Simone Soul e o próprio artista.
O destaque do filme está justamente na preocupação histórica que o velho cuiqueiro tem em narrar a trajetória do samba paulista que, não por acaso, confunde-se com sua própria história de vida. Ponto de extrema importância, é a referência às raízes rurais do samba de São Paulo, quando ele comenta e tenta resgatar a origem do gênero que em seus primórdios ecoava das cidades do interior. Emanado da zona rural, o samba dos mestiços e negros do interior aportava na capital pelo antigo entreposto de mercadorias agrícolas do Largo da Banana (atual bairro da Barra Funda), pois alí se estabelecia um informal ponto de encontro das camadas baixas da cidade e da zona rural, o que perfilou as origens do samba paulistano, entre a influência negra, mestiça e também de imigrantes italianos da capital. Com o passar dos anos, a partir desta eclética mescla, surgiram célebres sambistas como Geraldo Filme, com suas letras que falam do Largo, dos sambas de roda e dos cordões da época, e o genial Adoniran Barbosa, que irreverentemente retratava as situações e os tipos socias característicos da mistura cultural dos habitantes de São Paulo. Os cordões eram as agrupações carnavalescas da época e duraram até a década de 70, quando então os padrões cariocas passaram a ditar a organização alegórica do carnaval, fazendo com que antigos cordões se tranformassem em grandes escolas como a Vai-Vai e a Camisa Verde e Branco.
E assim, entre um caso e outro, uma puxada de cuíca aqui e uma batida de pandeiro alí, a história segue pelas mãos de Oswaldinho e pelos próximos que virão.

terça-feira, 28 de julho de 2009

50 anos sem Lady Day

De personalidade controversa e vida marcada por desatinos e incongruências, Billie Holiday, uma das maiores cantoras de jazz da história, morria há exatos 50 anos.
Sua infância foi marcada por tragédias como o abandono do pai e grandes ausências da mãe, além de ter caído na prostituição aos 14 anos de idade. Já por volta de 1930, com os EUA ainda sofrendo os efeitos da grande depressão de 1929, Billie inicia sua carreira de cantora de maneira inesperada quando, ao entrar num bar do Harlem oferecendo-se como dançarina, foi prontamente recusada por falta de talento, mas ao ser perguntada pelo pianista se sabia ao menos cantar, Billie soltou a voz e foi logo contratada.
A partir daí seguiu uma carreira que iria revolucionar o jazz. Gravou seu primeiro disco com a big band de Benny Goodman e nos anos seguintes misturou-se artisticamente a músicos do calibre de Artie Shaw, Count Basie, Duke Ellington, Teddy Wilson, Louis Armstrong e Lester Young. Este último foi seu grande parceiro, com quem revelava grande afinidade na sensibilidade artística.
A grande marca deixada por Lady Day foi sua característica vocal extremamente singular, que traduzia-se num canto visceral, com um sofrimento rasgado que cabia dentro de uma voz feminina sem alcance tamanho, mas dilacerante por natureza. Seu fraseado modulado era marcado ora pela intensidade ora pela dicção mínima e rouca, ao mesmo tempo sofrida e sensual. Por sua grande complexidade artística, marcada por estas incongruências no modo de cantar, Billie Holiday passaria a ser uma das figuras mais importantes da música do século XX, que segue influenciando cantoras do mundo inteiro até hoje.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

O Mago de Goiás

Filho de mãe tecelã e de pai violeiro e trabalhador da roça, Lindomar Alves da Conceição, ou simplesmente Domá da Conceição, descobriu sua música baseado nos ritmos tradicionais do centro-oeste como os das folias de reis, as catiras, as toadas, as guarânias, o chamamé e as congadas. Essa região do Brasil é como se fosse um ponto de confluência do raio geográfico e cultural de que é uma espécie de epicentro. É, portanto, um lugar que absorve um pouco de cada região que o rodeia, recebe ecos dos ritmos nordestinos, nortistas, do sudeste rural e da fronteira com o Paraguai e a Bolívia, traduzindo toda esta amálgama cultural em ritmos caboclos ricos em originalidade sertaneja.
Domá é um violeiro que representa muito desta cultura presente no coração da América do Sul. Começou sua carreira nos festivais de Goiás e estados vizinhos durante a década de 70, quando também exalava a influência de vários artistas que marcaram aquela época como Bob Dylan e Led Zeppelin, o que o fizera trocar a viola caipira pelo violão de 12 cordas. Anos mais tarde, já pela década de 80, alcançou reconhecimento em festivais, ganhando muitos prêmios, e ao mesmo tempo iniciou uma volta aos ritmos tradicionais aprendidos na infância, afastando-se da influência que havia tido do rock e do pop.
Com a decadência dos festivais, Domá experimentou o ostracismo, vivendo como eremita no interior de Goiás onde, anos depois, foi redescoberto pela folclorista Ely Camargo, que o convenceu de sua autêntica vocação de cantador e violeiro. Domá então trocou o violão pela viola e passou novamente a perambular pelas folias de reis. Também passou a fazer um trabalho educativo por escolas e comunidades mostrando os ritmos tradicionais e iniciou o projeto de gravação de um disco, Anjo Alecrim, finalizado em 2006, com composições próprias e de domínio popular.
Em sua vida de pessoa simples e profunda, o goiano quase sem estudo é praticamente considerado um filósofo. Íntimo da obra de pensadores como Goethe e Nietzsche, Domá diz: “Quanto mais leio esses caras mais me convenço de que preciso continuar tocando minha violinha”.
E nós seguiremos escutando!

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Velho novo baiano na Ilha

“Eu sou apenas um velho baiano, um fulano, um Caetano, um mano qualquer, vou contra a via, canto contra a melodia, nado contra a maré”. Não pode haver definição mais atual como a que o próprio Caetano usou para si na letra de “Branquinha”, do álbum “Estrangeiro” (1989). Sim, pois o artista já sexagenário soa bastante contemporâneo em seus últimos trabalhos, confirmando sua característica de sempre compor em sintonia com seu tempo, sempre disposto e aberto ao experimentalismo em todas as fases de sua carreira, mesmo que muitas vezes isso signifique nadar contra a maré.
Em seus últimos discos, “Cê” (2006) e o mais recente “Zii e Zie” (2008), ousou reunir três jovens músicos para gravar numa sonoridade mais crua e pesada, apenas com baixo, bateria e guitarra muitas vezes distorcida num cruzamento de rock e samba. As músicas destes discos não nascem a partir de melodias redondas, como tantas que Caetano possui, mas sim de composições mais ásperas e dissonantes, que seu vigoroso trio deixa ainda mais rudes e cheias de atitude. As músicas de “Zii e Zie” foram a base para o ótimo show em Florianópolis na última quarta-feira (08/07), com temas antagônicos como “Perdeu”, sobre a criança favelada marcada pela violência do tráfico, e “Falso Leblon”, sobre a menina de classe rica da zona sul carioca que consome drogas, ou então temas políticos como “Base de Guantánamo”, uma crítica sobre a ingerência norte-americana em Cuba, composta antes do início do desmantelamento da base por Barack Obama. Caetano também incluiu no repertório, com um arranjo surpreendente, o tango “Volver” (Gardel / Le Pera), reforçando sua consciente ligação e admiração pela música da América Latina, para a qual já rendeu valioso tributo no disco “Fina Estampa” (1994).
Caetano estava solto e à vontade em cena, sendo que desta vez não despencou do palco como em seu último show em Brasília. Durante a apresentação trocou pouquíssimas palavras com o público, dizendo apenas que estava feliz em poder voltar a Florianópolis, como que por alusão ao episódio fatídico quando teve problemas com a polícia durante a turnê dos Doces Bárbaros na cidade, que culminou com a prisão de Gilberto Gil. No entanto, o velho baiano alegrou o público que, apesar dos altos preços de ingresso, lotou o show e cantou alguns de seus antigos sucessos como “Trem das Cores”, “Irene”, “Não Identificado”, “Sou Neguinha” e “Força Estranha”.

Festivais na Lagoa

Há tempos a Lagoa da Conceição, por todos os seus atributos, merece sediar um evento como um festival de música e cultura. Público e paisagem não faltariam, a questão fica mais em função da falta de iniciativa pública e privada. Tomando o exemplo da falta de estrutura da Praça Bento Silvério para abrigar um festival de maior peso, com atrações locais, nacionais e porque não, também internacionais.
A junção do nosso cartão postal com um grande festival seria uma fórmula de sucesso, que além de beneficiar moradores, turistas e comerciantes, abriria um novo espaço de diálogo cultural entre artistas catarinenses e de outros estados e países. Também é através de eventos deste tipo que uma banda local pode ter maior facilidade em projetar-se nacionalmente, o que aliás, estamos precisando, pois não há nenhuma banda catarinense no cenário nacional, não por falta de talento, mas sim por falta de projeção.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Bolachas Eternas

O disco de vinil ou LP (Long Play), desacreditado e esquecido desde o aparecimento das mídias de gravação iniciadas com o CD, volta agora com força total. Por incrível que pareça, o CD teve sua morte praticamente decretada após somente 20 anos de existência. As lojas do ramo estão fechando ou migrando para a comercialização exclusiva de DVD's, as gravadoras amargam prejuízos e já não sabem mais o que fazer para conter os downloads na internet. No entanto, o velho LP sobreviveu a todas estas décadas e hoje em dia parece ainda atual. Claro que não para todos os públicos, mas sim para os colecionadores veteranos ou iniciantes, além de consumidores de novos lançamentos em vinil de artistas atuais na Europa e nos Estados Unidos.
Com a explosão do formato digital em mp3, o contato físico com o disco praticamente acabou, ou seja, fatores de elevado nível artístico como a produção das capas, hoje não são muito valorizados, sem falar nos encartes contendo toda ficha técnica e fotos, que também não despertam muito interesse nos ouvintes mais modernos e digitalizados.
O vinil está vivo para satisfazer aos ouvintes antenados nestes detalhes, e também para os que sentem falta deste tipo de contato mais físico e real com sua coleção. Falando das capas, muitas delas são verdadeiras obras de arte, a exemplo das criações do grande artista Elifas Andreato, que desenhou capas antológicas de discos da MPB nas décadas de 70 e 80.
O ouvinte e amante do vinil é aquele que dedica o momento a escutar um disco inteiro, sem ao mesmo tempo fazer algo que lhe tire a atenção sobre isto, a não ser que seja para apreciar a capa e o encarte. E claro, quando na companhia de outras pessoas, é sagrada a hora de comentar o disco depois de escutá-lo. Percebe-se então a diferença para o ouvinte exclusivo do mp3, que liga seu ipod enquanto faz qualquer outro tipo de atividade.
Como no Brasil a volta da comercialização dos discos de vinil ainda é muito restrita (ao contrário do caso europeu), para entrar neste universo é preciso se aventurar por sebos empoeirados e garimpar algumas preciosidades ou então achar discos daquela banda que marcou sua adolescência e você nem se lembrava mais. Como muitos títulos não foram reeditados em CD ou então tiveram uma tiragem muito baixa, alguns LP's são os únicos exemplares de determinados títulos, o que pode fazer com que o preço chegue nas alturas e mesmo assim ainda sejam disputados a tapa pelos colecionadores mais fanáticos.
Para continuar esta conversa, se você também é um entusiasta do vinil ou apenas um interessado no assunto, entre em contato e mande um comentário com sua opinião, sugestão ou dúvida.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Carrah Flahive: Entre o Jazz e a MPB


Nascida em uma família de músicos, Carrah Flahive descobriu o seu amor pelo jazz logo cedo, sentada ao piano ouvindo seus tios tocarem durante as reuniões familiares. Durante seus estudos na Los Angeles County High School for Arts, optou pela carreira em jazz e música contemporânea. Versatilidade, treinamento clássico, notável musicalidade e refinada técnica vocal fazem com que Carrah atue de forma sublime entre os mais variados estilos musicais, da música eletrônica brasileira do grupo D'Água aos cantos litúrgicos nas catedrais do centro de Los Angeles. Formada pela Los Angeles Music Academy, teve o privilégio de estudar com grandes músicos como Mike Shapiro, Toni Inzalaco, Debi Nova, Cathy Segal-Garcia, Diana Booker e sua grande guia e fonte de inspiração, a excelente cantora Kevyn Lettau.
Atualmente radicada no Brasil, a cantora norte-americana desenvolve um projeto musical inovador ao lado de Fabiano de Castro (piano), Andre Bordinhon (guitarra), Sidiel Vieira (contra-baixo acústico) e Bruno Iasi (bateria). O trabalho consiste na apresentação de releituras com arranjos estilizados e contemporâneos para as composições dos artistas mineiros que marcaram a história da MPB através do famoso movimento musical conhecido como Clube da Esquina, nos anos 60 e 70. Serão, portanto, interpretadas as canções de artistas como Milton Nascimento, Lô Borges, Márcio Borges, Beto Guedes, Tavinho Moura, Toninho Horta e Fernando Brant.
O projeto é como se fosse uma troca de influências, pois se Milton Nascimento foi muito influenciado em sua formação pelos grandes músicos do jazz norte-americano e outros artistas como os Beatles, The Platters e Bob Dylan, agora Carrah devolve ao Brasil, em forma de homenagem, toda influência que teve da música brasileira, em especial destes grandes compositores que criaram o Clube da Esquina.

Carrah se apresenta em algumas temporadas na noite paulistana e também já se apresentou em Florianópolis em 2008. Com este novo projeto ambiciona excursionar pelas demais capitais do sul do país e também pelo sudeste e nordeste.

Para conferir o trabalho desta jovem e promissora cantora, acessem: www.myspace.com/carrahflahive

domingo, 28 de junho de 2009

Entre fama e morfina


Cabelo black power, calça boca de sino, um talento precoce destacado entre cinco irmãos que naturalmente se tornam seus coadjuvantes, uma voz que herda toda intensidade da música negra norte-americana, do gospel ao rhythm & blues. Anos depois, grandes discos solo pela célebre gravadora Motown como Ben (1972), passando pelo primeiro disco da fase mais adulta Off the Wall (1979), até chegar ao ápice com Thriller (1982), sua coroação. Um artista completo que aliava ao canto e à composição, uma dança de movimentos espetaculares, precisos, onde todo o corpo tinha uma função rítmica. Sua música já era uma nova síntese de estilos, que incorporava soul music, R&B, disco e funk. Mas foi a partir de Bad (1987) que toda esta síntese fundiu-se sob a égide do pop, justamente este o fator que aglutinou toda sua carreira artística para o início do desvirtuamento musical, com algumas exceções ao longo dos anos seguintes. Porém, nenhuma perda de virtudes comparada com sua decadência como ser humano, que ultrapassou todos os limites do possível, criando uma vida reclusa e ilusória num mundo de particularidades excêntricas. Seja qual for a causa física de sua morte, Michael Jackson já estava sepultado em seu universo próprio.
No entanto, as tragédias pessoais não poderão prevalecer sobre o que representou artisticamente a vida deste gênio da música, que revolucionou os padrões, influenciou diversos outros artistas e fez com que não sentíssemos sua música só através dos ouvidos, mas também pelos olhos. Foi ele o primeiro artista em que havia a real necessidade de também vê-lo além de ouví-lo. É, portanto, por estes motivos e muitos outros que seu trono será sempre cativo. Michael se vai mas sua música segue.

sábado, 27 de junho de 2009

Cantares de Portugal: Fado com vista para a Lagoa

Resgatando a tradição do fado, a cantora Maria Isilda apresenta um repertório de canções marcantes deste gênero, acompanhada por violão, guitarra portuguesa e teclado no Bar Ponto de Vista em shows que iniciaram em junho e deverão ocorrer mensalmente.
Maria Isilda nasceu em Angola e mora no Brasil desde 1976, tendo vivido inicialmente em Minas Gerais, depois no Paraná e agora em Santa Catarina, na Lagoa da Conceição. Advinda de uma família musical, iniciou seus estudos em canto lírico ainda em Angola, e após viver por um ano em Portugal, continuou sua trajetória aqui no Brasil, onde atualmente é professora de canto lírico e popular.
O fado sempre esteve presente em sua formação musical, desde criança quando ouvia seu pai cantar. Ainda na área da música popular, teve grande influência da música brasileira, portuguesa e cabo-verdiana.
A cantora Teresa Salgueiro, que fazia parte do aclamado conjunto português Madredeus, foi uma grande referência para Maria Isilda, justamente pelo fato de Teresa também ter formação lírica e levar esta virtude aos vocais característicos do Madredeus. E obviamente, ela cita também a influência imprescindível de Amália Rodrigues, não deixando de lado as cantoras mais recentes como Mariza e Ana Moura.
No repertório apresentado no Ponto de Vista não faltam fados clássicos como "Fadinho Serrano", "Ai, Mouraria", "Nem às Parades Confesso", "Coimbra", "Estranha Forma de Vida", "Marujo Português", "Gaivota", "Tudo Isto é Fado" e "Lisboa Antiga".

Sr. Brasil: Boldrin tirando o Brasil da gaveta


O programa Sr. Brasil, como já traz no nome, é o mais brasileiro da televisão. Um programa com cheiro de mato, que entre um poema e um "causo" contado por Rolandro Boldrin, traz artistas de todas as regiões do país, com seus diferentes sotaques e diversa musicalidade. Artistas estes, em sua maioria sem espaço na mídia convencional, que retratam o Brasil como ele é, assim simples, caboclo, autêntico, cheio de poesia e sentimentalismo em letras e acordes que só se escutam todas as terças, às 22 horas pela TV Cultura.

Por tudo isso, podemos até nos surpreender com toda riqueza musical brasileira, muitas vezes escondida pelos rincões remotos, ao longo de estradas de chão que rasgam nosso infinito sertão. Pode ser através do som de uma gaita do sul, uma viola do centro-oeste ou uma zabumba do nordeste, tudo isto é Brasil. Precisamos sim é redescobrir cada pedaço disto, tirando o Brasil da gaveta, como Boldrin brilhantemente faz em seu programa, mostrando um país que depois de 500 anos de embates, confluências e fusões culturais, hoje resulta numa pessoa de respeito, a qual queremos reverenciar como Sr. Brasil.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Ares contemporâneos ao velho fado

Na fronteira entre o tradicionalismo e a contemporaneidade de gêneros tão antigos como o fado, é preciso estar atento para diferenciar os verdadeiros artistas, que conduzem dignamente a música em seu avanço por mais um século, dos grupos que apenas querem causar um impacto instantâneo através de remodelações musicais de alvo puramente comercial. António Zambujo é um fadista do nosso tempo, que traz no sangue e na formação toda a tradição, mas que nos devolve a música em estado de frescor propício a este início de século.
Nascido em Beja, no ano de 1975, cresceu ouvindo o fado e os cantos alentejanos. Depois mudou-se para Lisboa, onde desenvolveu sua carreira artística. Foi bastante influenciado pela música brasileira, de que aliás é grande admirador e entusiasta, principalmente da música de Ivan Lins, Caetano Veloso, João Gilberto, entre outros.
Em seus 3 discos lançados, percebe-se que Zambujo prima pela coesão e limpidez musical, conservando o lirismo característico do fado, mas ao mesmo tempo acrescentando uma espécie de lubrificação ao gênero. Aos intrumentos da formação tradicional, como o violão e a guitarra portuguesa, adicionou-se em algumas faixas o contra-baixo acústico e o cello, o que pode causar receio em alguns puristas. No entanto, o resultado é incontestávelmente interessante.
Myspace do artista: www.myspace.com/antoniozambujo

segunda-feira, 8 de junho de 2009

13° FAM: Um buraco na fechadura dos vizinhos


Entre 05 e 12 de junho ocorreu o já tradicional Florianópolis Audiovisual do Mercosul, festival que reúne produções dos países da região. Com uma extensa programação, incluindo fóruns, mostra de curtas, programação infantil e exibição de longas, esta décima terceira edição foi uma das melhores, a começar pela mudança da sede do teatro do CIC para o Centro de Eventos da UFSC, o que melhorou muito o acesso do público pela estrutura e tamanho da sala. Como de costume, o FAM caracteriza-se como um evento cultural bastante democrático e que contempla a diversidade cultural dos países em questão.
O festival cumpre um papel muito importante dentro dos esforços de integração cultural do Mercosul, pois é uma espécie de buraco na fechadura dos países vizinhos, através do qual temos a rara oportunidade de conhecer as produções de países como Argentina, Uruguai e Chile, que infelizmente passam à margem da programação comercial de cinema. A produção audiovisual é um dos principais meios para firmar a identidade cultural que nos é complementar e muitas vezes comum entre os países latino-americanos.
Para Florianópolis, um evento cultural deste tipo só engrandece a cidade, ajudando a reduzir o estigma de que as relações com os países vizinhos fiquem apenas no âmbito turístico e também para que, finalmente, caiam as barreiras que nos separam dos demais países, seja por questões de preconceito, idioma ou puro desconhecimento destas outras culturas.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Um adeus a Benedetti


Avellaneda deve estar triste. Jaime, Esteban e Blanca também. Martín então nem se fala, pois agora está sem suas mãos conduzentes, não podendo nem ao menos escrever seu dilacerante diário. Mas enfim, um dia nos chega a trégua por tantas batalhas diárias, que muitas vezes não são através de atos políticos, luta por ideais ou simplesmente a necessária cruzada diária pela sobrevivência econômica. São, porém, os esforços eloquentes de nos livrarmos da monotonia ou da mediocridade que tanto nos arrasta para um campo anestésico, onde nos guiamos por atos de repetição e tantas limitações que nos fazem esquecer do que há em volta, do real ou do imaginário, e principalmente onde a visão não alcança. Foi sim nesta batalha que agora perdemos um soldado gigante, que depois de 88 anos teve sua trégua. Adeus Mario!

quinta-feira, 14 de maio de 2009

"Guitarrísimo": Juan Falú e o violão sul-americano no TAC


Em rara oportunidade de assitir à uma apresentação de um artista latino-americano em Florianópolis, Juan Falú tocou no Teatro Álvaro de Carvalho nesta última quarta-feira (13/05), trazendo ao público seu grande repertório baseado nos ritmos populares e folclóricos da Argentina e do continente. O concerto foi promovido pelo Instituto Cervantes, organizador do ciclo "Guitarrísimo", que apresenta os principais intérpretes e repertórios para violão e instrumentos afins da Espanha e Hisponoamérica, países que têm, como o Brasil, o violão como um instrumento profundamente enraizado nas suas culturas musicais . Falú é um violonista e compositor de Tucumán, no noroeste argentino, e carrega consigo toda a profundidade e tradição desta região de seu país, traduzindo isso tudo através da arte de interpretar chacareras, zambas, canavalitos, vidalas, valses e gatos, todos ritmos e danças populares que se espalham no mapa musical da América do Sul.
Durante a apresentação, Falú relembrou em homenagem ao público, composições brasileiras que estão em sua memória desde o período em que chegou a viver no Brasil. "Gente Humilde" (Garoto / Chico Buarque / Vinícius de Moraes), ""Chão de Estrelas" (Sílvio Caldas / Orestes Barbosa), "Manhã de Carnaval" (Luíz Bonfá / Antônio Maria) e "Asa Branca" (Luíz Gonzaga / Humberto Teixeira) estiveram presentes, além de composições próprias e obras clássicas do folclore argentino compostas por Atahualpa Yupanqui e Ariel Ramírez.
Possuidor de refinada técnica ao violão, Falú nos revelou um pouco das tradições populares de introspecção, alegrias e tristezas que sua música pode proporcionar, traduzindo uma interessante parte do nosso continente, sob os retalhos culturais de cada região.
Acompanhe a entrevista de Juan Falú concedida ao Blog Pente Fino Musical:
PFM: É a primeira vez que toca em Florianópolis?
Não, me recordo que estive aqui neste mesmo teatro há 30 anos, ocasião em que me apresentei com o grupo brasileiro Tarancón, famoso na época por interpretar músicas de protesto de compositores latino-americanos.
PFM: Em quais outros aspectos, sua vida pessoal e profissional estão ligadas ao Brasil?
Sempre admirei o Brasil por sua grande música, e também pela difusão que o violão alcança por aqui, assim como na Argentina. Além disso, vivi em São Paulo por 8 anos, período em que estive exilado devido à ditadura militar em meu país.
PFM: Quais são as suas maiores influências dentro de sua formação musical?
Escuto de tudo, e sempre busco estar aberto a vários gêneros e pronto para incorporar ideias novas. Sou auto-didata, e no início escutei muito Andrés Segóvia, Atahualpa Yupanqui e também muita música clássica. Hoje creio que meu estilo é próprio, baseado na mescla de tudo que incorporo.
PFM: Como vê o intercâmbio cultural, especialmente na área da música entre Brasil e Argentina?
Noto que os artistas criam iniciativas, existem afinidades, em se tratando do violão então, são dois países que tem esse instrumento muito presente em suas tradições musicais. Porém, temos todos os outros obstáculos como o preconceito e a falta de apoio público e privado, fazendo com que o público desconheça muito da música de cada país.
PFM: A que outras atividades se dedica?
Sou professor no Conservatório Manuel de Falla, em Buenos Aires e dirijo o ciclo musical Guitarras del Mundo, encontro que reúne prestigiosos violonistas internacionais. Também sou um dos criadores do ciclo Maestros del Alma, no qual se homenageiam as principais referências vivas da música folclórica argentina.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

A vanguarda italiana de Vinicio Capossela


Parece que os ecos da velha península estancaram por aqui desde que cantores românticos como Sérgio Endrigo, Pepino di Capri, Luigi Tenco e Nico Fidenco estouravam pelas rádios e televisões do Brasil na década de 60. Desde então, nenhuma voz italiana soou em terras brasileiras, talvez com a boa exceção de Lucio Dalla e Zucchero, ainda que sufocados pela avalanche do pop internacional, principalmente de artistas norte-americanos e britânicos que nos acorrentaram a partir da década de 80.

Enquanto isso, criativos cantores e compositores italianos trabalhavam às escuras, pelo menos não sob o foco dos holofotes brasileiros. Assim, todo este período refratário nos fez ignorar artistas como Francesco De Gregori, Fabrízio De André, Pino Daniele, Rino Gaetano, Gianmaria Testa e vários outros.

Vinicio Capossela é um artista um pouco mais recente, que iniciou sua carreira nos anos 90 e hoje representa a contemporâneidade na música italiana. Nascido em Hannover, na Alemanha, Capossela é filho de italianos originários da região da Campania, ao sul da Itália. Porém, ainda criança retornou ao país e fixou-se na região de Emilia-Romagna, onde começou a despontar no circuito alternativo alguns anos mais tarde. Sua música é fortemente influênciada pela literatura e pelo cinema, fato perceptível em diversas músicas, que poderiam perfeitamente servir como trilha aos filmes de Fellini. Capossela tem um estilo de vanguarda, mas que mesmo assim incorpora elementos da música tradicional e folclórica da Itália, principalmente da Campania. Com voz incisiva e marcante, transita pela vanguarda sonora, mas ao mesmo tempo evoca ritmos que reconstroem uma Itália longínqua e arcaica, sem contar as construções estéticas dignas de cenas cinematográficas.

terça-feira, 5 de maio de 2009

"3° Floripa Instrumental" reúne grandes músicos na Freguesia do Ribeirão da Ilha

Entre 30 de abril e 03 de maio, a música instrumental tomou conta de Florianópolis, reunindo grandes músicos brasileiros no Ribeirão da Ilha em quatro apresentações principais, além de rodas de choro, jam sessions e workshops, que movimentaram a pacata freguesia do sul da ilha. A primeira noite foi do grande percussionista recifense Naná Vasconcelos, que hipnotizou o público com suas criações rítmicas que evocam sons da natureza e elementos místicos da cultura afro-brasileira. Com a platéia sob seu comando, Naná consegue nos remeter em sua magia percussiva ao universo dos ruídos de pássaros, da chuva e até do Rio Amazonas. É um músico que compreende o Brasil através de seus sons, tão diversos e imensos em suas distintas regiões.

Naná Vasconcelos no Floripa Instrumental

No feriado de 01 de maio, o destaque foi o excepcional acordeonista Alessandro Kramer, o "Bebê", já conhecido e aclamado pelo público local. Apresentou-se numa formação de trio trazendo sua música que transita entre o jazz, o tango, a milonga e ritmos brasileiros. O destaque da noite de sábado foi a sonoridade carioca do Trio Madeira Brasil, formado pelos músicos Zé Paulo Becker (violão 6 cordas), Marcelo Gonçalves (violão 7 cordas) e Ronaldo do Bandolim (bandolim). Com um repertório afiado que passou por Tom Jobim, Ernesto Nazareth, Jacob do Bandolim, Chico Buarque, Astor Piazzolla, Manuel de Falla e Villa-lobos, o trio muito coeso e cheio de técnica, impressionou o público com sua precisão de arranjos e interpretações. Como grata surpresa no decorrer da apresentação, o trio chamou ao palco o clarinetista Proveta, para uma participação especial.

Trio Madeira Brasil no Floripa Instrumental

Já no domingo, último dia do festival, o encerramento ficou por conta do grande violonista gaúcho Yamandú Costa. Músico que dispensa apresentações, trouxe toda a bagagem do choro em seu repertório, sem deixar de lado suas raízes sulistas. Interpretou temas de composição própria e de compositores como Radamés Gnatalli e Pixinguinha. Ainda chamou Alessandro Kramer ao palco, tocando entre outras músicas, a sensacional "Libertango", de Piazzolla, fechando a tarde em altíssimo estilo.

Yamandú Costa e Alessandro Kramer

A edição deste festival foi de grande importância para a divulgação da música instrumental em Florianópolis, lembrando que também atuaram em apresentações paralelas, excelentes músicos como Arismar do Espírito Santo, Proveta, Quarteto Rio Vermelho, Cássio Moura, Arnou de Melo, Mauro Borghesan e o incrível trompetista porto alegrense Jorginho do Trompete.

O Ribeirão da Ilha foi um agradável local para a realização do evento, que priorizou os shows ao ar livre. No entanto, houve problemas quanto ao trânsito local que ficou congestionado em virtude das estreitas ruas da velha freguesia. O palco no primeiro dia de apresentações estava extremamente baixo, impossibilitando a visão da maioria do público durante o show de Naná Vasconcelos, porém, a partir do próximo dia a produção solucionou este detalhe, garantindo melhor visão nos demais shows.

Esperamos poder contar com outras edições do "Floripa Instrumental" e também com eventos semelhantes, que prestigiem artistas verdadeiros como os que vimos neste festival. Florianópolis agradece!

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Tabaré Cardozo: El gorrión de la murga!

Ainda pouco se sabe no Brasil sobre a cultura do Uruguay. Pois Tabaré Cardozo pode ser um bom ponto de partida para descobrir mais sobre este país vizinho, que apesar de pequeno, guarda verdadeiros tesouros como o Candombe e a Murga. Tabaré é um autor e intérprete de murgas, esta expressão cultural de mais de um século que úne música e teatro, com letras tratando de temas sociais e políticos do cotidiano. A Murga teve origem aproximada em 1906, quando da chegada ao Uruguay de um grupo de Zarzuela espanhola que se transformou sob as circunstâncias locais, próprias da cultura colonial latino-americano, que absorve e condensa influências africanas, européias e indígenas.

Atualmente a Murga está presente em países como Argentina, Chile, Colômbia e Espanha, mas foi no Uruguay onde se firmou como grande instituição cultural do patrimônio artístico, presente nos seus extensos carnavais e eternizada por artistas populares como Jaime Roos, Canario Luna e os grupos Falta y Resto, Contrafarsa, Araca la Cana.

Tabaré Cardozo é um artista contemporâneo, compositor e intéprete de linhagem teatral própria da Murga. Seu último disco, Poética Murguera (Obligado Records), é uma prova do rejuvenescimento deste gênero, mostrando que ele seguirá vivo ao longo dos próximos séculos. Mas este é só um dos segredos escondidos à margem do Prata, neste pequeno gigante espremido entre Brasil e Argentina.