quinta-feira, 21 de maio de 2009

Um adeus a Benedetti


Avellaneda deve estar triste. Jaime, Esteban e Blanca também. Martín então nem se fala, pois agora está sem suas mãos conduzentes, não podendo nem ao menos escrever seu dilacerante diário. Mas enfim, um dia nos chega a trégua por tantas batalhas diárias, que muitas vezes não são através de atos políticos, luta por ideais ou simplesmente a necessária cruzada diária pela sobrevivência econômica. São, porém, os esforços eloquentes de nos livrarmos da monotonia ou da mediocridade que tanto nos arrasta para um campo anestésico, onde nos guiamos por atos de repetição e tantas limitações que nos fazem esquecer do que há em volta, do real ou do imaginário, e principalmente onde a visão não alcança. Foi sim nesta batalha que agora perdemos um soldado gigante, que depois de 88 anos teve sua trégua. Adeus Mario!

quinta-feira, 14 de maio de 2009

"Guitarrísimo": Juan Falú e o violão sul-americano no TAC


Em rara oportunidade de assitir à uma apresentação de um artista latino-americano em Florianópolis, Juan Falú tocou no Teatro Álvaro de Carvalho nesta última quarta-feira (13/05), trazendo ao público seu grande repertório baseado nos ritmos populares e folclóricos da Argentina e do continente. O concerto foi promovido pelo Instituto Cervantes, organizador do ciclo "Guitarrísimo", que apresenta os principais intérpretes e repertórios para violão e instrumentos afins da Espanha e Hisponoamérica, países que têm, como o Brasil, o violão como um instrumento profundamente enraizado nas suas culturas musicais . Falú é um violonista e compositor de Tucumán, no noroeste argentino, e carrega consigo toda a profundidade e tradição desta região de seu país, traduzindo isso tudo através da arte de interpretar chacareras, zambas, canavalitos, vidalas, valses e gatos, todos ritmos e danças populares que se espalham no mapa musical da América do Sul.
Durante a apresentação, Falú relembrou em homenagem ao público, composições brasileiras que estão em sua memória desde o período em que chegou a viver no Brasil. "Gente Humilde" (Garoto / Chico Buarque / Vinícius de Moraes), ""Chão de Estrelas" (Sílvio Caldas / Orestes Barbosa), "Manhã de Carnaval" (Luíz Bonfá / Antônio Maria) e "Asa Branca" (Luíz Gonzaga / Humberto Teixeira) estiveram presentes, além de composições próprias e obras clássicas do folclore argentino compostas por Atahualpa Yupanqui e Ariel Ramírez.
Possuidor de refinada técnica ao violão, Falú nos revelou um pouco das tradições populares de introspecção, alegrias e tristezas que sua música pode proporcionar, traduzindo uma interessante parte do nosso continente, sob os retalhos culturais de cada região.
Acompanhe a entrevista de Juan Falú concedida ao Blog Pente Fino Musical:
PFM: É a primeira vez que toca em Florianópolis?
Não, me recordo que estive aqui neste mesmo teatro há 30 anos, ocasião em que me apresentei com o grupo brasileiro Tarancón, famoso na época por interpretar músicas de protesto de compositores latino-americanos.
PFM: Em quais outros aspectos, sua vida pessoal e profissional estão ligadas ao Brasil?
Sempre admirei o Brasil por sua grande música, e também pela difusão que o violão alcança por aqui, assim como na Argentina. Além disso, vivi em São Paulo por 8 anos, período em que estive exilado devido à ditadura militar em meu país.
PFM: Quais são as suas maiores influências dentro de sua formação musical?
Escuto de tudo, e sempre busco estar aberto a vários gêneros e pronto para incorporar ideias novas. Sou auto-didata, e no início escutei muito Andrés Segóvia, Atahualpa Yupanqui e também muita música clássica. Hoje creio que meu estilo é próprio, baseado na mescla de tudo que incorporo.
PFM: Como vê o intercâmbio cultural, especialmente na área da música entre Brasil e Argentina?
Noto que os artistas criam iniciativas, existem afinidades, em se tratando do violão então, são dois países que tem esse instrumento muito presente em suas tradições musicais. Porém, temos todos os outros obstáculos como o preconceito e a falta de apoio público e privado, fazendo com que o público desconheça muito da música de cada país.
PFM: A que outras atividades se dedica?
Sou professor no Conservatório Manuel de Falla, em Buenos Aires e dirijo o ciclo musical Guitarras del Mundo, encontro que reúne prestigiosos violonistas internacionais. Também sou um dos criadores do ciclo Maestros del Alma, no qual se homenageiam as principais referências vivas da música folclórica argentina.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

A vanguarda italiana de Vinicio Capossela


Parece que os ecos da velha península estancaram por aqui desde que cantores românticos como Sérgio Endrigo, Pepino di Capri, Luigi Tenco e Nico Fidenco estouravam pelas rádios e televisões do Brasil na década de 60. Desde então, nenhuma voz italiana soou em terras brasileiras, talvez com a boa exceção de Lucio Dalla e Zucchero, ainda que sufocados pela avalanche do pop internacional, principalmente de artistas norte-americanos e britânicos que nos acorrentaram a partir da década de 80.

Enquanto isso, criativos cantores e compositores italianos trabalhavam às escuras, pelo menos não sob o foco dos holofotes brasileiros. Assim, todo este período refratário nos fez ignorar artistas como Francesco De Gregori, Fabrízio De André, Pino Daniele, Rino Gaetano, Gianmaria Testa e vários outros.

Vinicio Capossela é um artista um pouco mais recente, que iniciou sua carreira nos anos 90 e hoje representa a contemporâneidade na música italiana. Nascido em Hannover, na Alemanha, Capossela é filho de italianos originários da região da Campania, ao sul da Itália. Porém, ainda criança retornou ao país e fixou-se na região de Emilia-Romagna, onde começou a despontar no circuito alternativo alguns anos mais tarde. Sua música é fortemente influênciada pela literatura e pelo cinema, fato perceptível em diversas músicas, que poderiam perfeitamente servir como trilha aos filmes de Fellini. Capossela tem um estilo de vanguarda, mas que mesmo assim incorpora elementos da música tradicional e folclórica da Itália, principalmente da Campania. Com voz incisiva e marcante, transita pela vanguarda sonora, mas ao mesmo tempo evoca ritmos que reconstroem uma Itália longínqua e arcaica, sem contar as construções estéticas dignas de cenas cinematográficas.

terça-feira, 5 de maio de 2009

"3° Floripa Instrumental" reúne grandes músicos na Freguesia do Ribeirão da Ilha

Entre 30 de abril e 03 de maio, a música instrumental tomou conta de Florianópolis, reunindo grandes músicos brasileiros no Ribeirão da Ilha em quatro apresentações principais, além de rodas de choro, jam sessions e workshops, que movimentaram a pacata freguesia do sul da ilha. A primeira noite foi do grande percussionista recifense Naná Vasconcelos, que hipnotizou o público com suas criações rítmicas que evocam sons da natureza e elementos místicos da cultura afro-brasileira. Com a platéia sob seu comando, Naná consegue nos remeter em sua magia percussiva ao universo dos ruídos de pássaros, da chuva e até do Rio Amazonas. É um músico que compreende o Brasil através de seus sons, tão diversos e imensos em suas distintas regiões.

Naná Vasconcelos no Floripa Instrumental

No feriado de 01 de maio, o destaque foi o excepcional acordeonista Alessandro Kramer, o "Bebê", já conhecido e aclamado pelo público local. Apresentou-se numa formação de trio trazendo sua música que transita entre o jazz, o tango, a milonga e ritmos brasileiros. O destaque da noite de sábado foi a sonoridade carioca do Trio Madeira Brasil, formado pelos músicos Zé Paulo Becker (violão 6 cordas), Marcelo Gonçalves (violão 7 cordas) e Ronaldo do Bandolim (bandolim). Com um repertório afiado que passou por Tom Jobim, Ernesto Nazareth, Jacob do Bandolim, Chico Buarque, Astor Piazzolla, Manuel de Falla e Villa-lobos, o trio muito coeso e cheio de técnica, impressionou o público com sua precisão de arranjos e interpretações. Como grata surpresa no decorrer da apresentação, o trio chamou ao palco o clarinetista Proveta, para uma participação especial.

Trio Madeira Brasil no Floripa Instrumental

Já no domingo, último dia do festival, o encerramento ficou por conta do grande violonista gaúcho Yamandú Costa. Músico que dispensa apresentações, trouxe toda a bagagem do choro em seu repertório, sem deixar de lado suas raízes sulistas. Interpretou temas de composição própria e de compositores como Radamés Gnatalli e Pixinguinha. Ainda chamou Alessandro Kramer ao palco, tocando entre outras músicas, a sensacional "Libertango", de Piazzolla, fechando a tarde em altíssimo estilo.

Yamandú Costa e Alessandro Kramer

A edição deste festival foi de grande importância para a divulgação da música instrumental em Florianópolis, lembrando que também atuaram em apresentações paralelas, excelentes músicos como Arismar do Espírito Santo, Proveta, Quarteto Rio Vermelho, Cássio Moura, Arnou de Melo, Mauro Borghesan e o incrível trompetista porto alegrense Jorginho do Trompete.

O Ribeirão da Ilha foi um agradável local para a realização do evento, que priorizou os shows ao ar livre. No entanto, houve problemas quanto ao trânsito local que ficou congestionado em virtude das estreitas ruas da velha freguesia. O palco no primeiro dia de apresentações estava extremamente baixo, impossibilitando a visão da maioria do público durante o show de Naná Vasconcelos, porém, a partir do próximo dia a produção solucionou este detalhe, garantindo melhor visão nos demais shows.

Esperamos poder contar com outras edições do "Floripa Instrumental" e também com eventos semelhantes, que prestigiem artistas verdadeiros como os que vimos neste festival. Florianópolis agradece!