sexta-feira, 31 de julho de 2009

Cidadão Samba

Passista, compositor, instrumentista, intérprete e estudioso do samba, Oswaldinho da Cuíca é uma figura emblemática da música brasileira e do samba paulistano. Aos 69 anos de vida e muita chinfra, ele revela passagens de sua biografia no documentário "Oswaldinho da Cuíca: Cidadão do Samba" (2008), produzido por Toni Nogueira, Simone Soul e o próprio artista.
O destaque do filme está justamente na preocupação histórica que o velho cuiqueiro tem em narrar a trajetória do samba paulista que, não por acaso, confunde-se com sua própria história de vida. Ponto de extrema importância, é a referência às raízes rurais do samba de São Paulo, quando ele comenta e tenta resgatar a origem do gênero que em seus primórdios ecoava das cidades do interior. Emanado da zona rural, o samba dos mestiços e negros do interior aportava na capital pelo antigo entreposto de mercadorias agrícolas do Largo da Banana (atual bairro da Barra Funda), pois alí se estabelecia um informal ponto de encontro das camadas baixas da cidade e da zona rural, o que perfilou as origens do samba paulistano, entre a influência negra, mestiça e também de imigrantes italianos da capital. Com o passar dos anos, a partir desta eclética mescla, surgiram célebres sambistas como Geraldo Filme, com suas letras que falam do Largo, dos sambas de roda e dos cordões da época, e o genial Adoniran Barbosa, que irreverentemente retratava as situações e os tipos socias característicos da mistura cultural dos habitantes de São Paulo. Os cordões eram as agrupações carnavalescas da época e duraram até a década de 70, quando então os padrões cariocas passaram a ditar a organização alegórica do carnaval, fazendo com que antigos cordões se tranformassem em grandes escolas como a Vai-Vai e a Camisa Verde e Branco.
E assim, entre um caso e outro, uma puxada de cuíca aqui e uma batida de pandeiro alí, a história segue pelas mãos de Oswaldinho e pelos próximos que virão.

terça-feira, 28 de julho de 2009

50 anos sem Lady Day

De personalidade controversa e vida marcada por desatinos e incongruências, Billie Holiday, uma das maiores cantoras de jazz da história, morria há exatos 50 anos.
Sua infância foi marcada por tragédias como o abandono do pai e grandes ausências da mãe, além de ter caído na prostituição aos 14 anos de idade. Já por volta de 1930, com os EUA ainda sofrendo os efeitos da grande depressão de 1929, Billie inicia sua carreira de cantora de maneira inesperada quando, ao entrar num bar do Harlem oferecendo-se como dançarina, foi prontamente recusada por falta de talento, mas ao ser perguntada pelo pianista se sabia ao menos cantar, Billie soltou a voz e foi logo contratada.
A partir daí seguiu uma carreira que iria revolucionar o jazz. Gravou seu primeiro disco com a big band de Benny Goodman e nos anos seguintes misturou-se artisticamente a músicos do calibre de Artie Shaw, Count Basie, Duke Ellington, Teddy Wilson, Louis Armstrong e Lester Young. Este último foi seu grande parceiro, com quem revelava grande afinidade na sensibilidade artística.
A grande marca deixada por Lady Day foi sua característica vocal extremamente singular, que traduzia-se num canto visceral, com um sofrimento rasgado que cabia dentro de uma voz feminina sem alcance tamanho, mas dilacerante por natureza. Seu fraseado modulado era marcado ora pela intensidade ora pela dicção mínima e rouca, ao mesmo tempo sofrida e sensual. Por sua grande complexidade artística, marcada por estas incongruências no modo de cantar, Billie Holiday passaria a ser uma das figuras mais importantes da música do século XX, que segue influenciando cantoras do mundo inteiro até hoje.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

O Mago de Goiás

Filho de mãe tecelã e de pai violeiro e trabalhador da roça, Lindomar Alves da Conceição, ou simplesmente Domá da Conceição, descobriu sua música baseado nos ritmos tradicionais do centro-oeste como os das folias de reis, as catiras, as toadas, as guarânias, o chamamé e as congadas. Essa região do Brasil é como se fosse um ponto de confluência do raio geográfico e cultural de que é uma espécie de epicentro. É, portanto, um lugar que absorve um pouco de cada região que o rodeia, recebe ecos dos ritmos nordestinos, nortistas, do sudeste rural e da fronteira com o Paraguai e a Bolívia, traduzindo toda esta amálgama cultural em ritmos caboclos ricos em originalidade sertaneja.
Domá é um violeiro que representa muito desta cultura presente no coração da América do Sul. Começou sua carreira nos festivais de Goiás e estados vizinhos durante a década de 70, quando também exalava a influência de vários artistas que marcaram aquela época como Bob Dylan e Led Zeppelin, o que o fizera trocar a viola caipira pelo violão de 12 cordas. Anos mais tarde, já pela década de 80, alcançou reconhecimento em festivais, ganhando muitos prêmios, e ao mesmo tempo iniciou uma volta aos ritmos tradicionais aprendidos na infância, afastando-se da influência que havia tido do rock e do pop.
Com a decadência dos festivais, Domá experimentou o ostracismo, vivendo como eremita no interior de Goiás onde, anos depois, foi redescoberto pela folclorista Ely Camargo, que o convenceu de sua autêntica vocação de cantador e violeiro. Domá então trocou o violão pela viola e passou novamente a perambular pelas folias de reis. Também passou a fazer um trabalho educativo por escolas e comunidades mostrando os ritmos tradicionais e iniciou o projeto de gravação de um disco, Anjo Alecrim, finalizado em 2006, com composições próprias e de domínio popular.
Em sua vida de pessoa simples e profunda, o goiano quase sem estudo é praticamente considerado um filósofo. Íntimo da obra de pensadores como Goethe e Nietzsche, Domá diz: “Quanto mais leio esses caras mais me convenço de que preciso continuar tocando minha violinha”.
E nós seguiremos escutando!

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Velho novo baiano na Ilha

“Eu sou apenas um velho baiano, um fulano, um Caetano, um mano qualquer, vou contra a via, canto contra a melodia, nado contra a maré”. Não pode haver definição mais atual como a que o próprio Caetano usou para si na letra de “Branquinha”, do álbum “Estrangeiro” (1989). Sim, pois o artista já sexagenário soa bastante contemporâneo em seus últimos trabalhos, confirmando sua característica de sempre compor em sintonia com seu tempo, sempre disposto e aberto ao experimentalismo em todas as fases de sua carreira, mesmo que muitas vezes isso signifique nadar contra a maré.
Em seus últimos discos, “Cê” (2006) e o mais recente “Zii e Zie” (2008), ousou reunir três jovens músicos para gravar numa sonoridade mais crua e pesada, apenas com baixo, bateria e guitarra muitas vezes distorcida num cruzamento de rock e samba. As músicas destes discos não nascem a partir de melodias redondas, como tantas que Caetano possui, mas sim de composições mais ásperas e dissonantes, que seu vigoroso trio deixa ainda mais rudes e cheias de atitude. As músicas de “Zii e Zie” foram a base para o ótimo show em Florianópolis na última quarta-feira (08/07), com temas antagônicos como “Perdeu”, sobre a criança favelada marcada pela violência do tráfico, e “Falso Leblon”, sobre a menina de classe rica da zona sul carioca que consome drogas, ou então temas políticos como “Base de Guantánamo”, uma crítica sobre a ingerência norte-americana em Cuba, composta antes do início do desmantelamento da base por Barack Obama. Caetano também incluiu no repertório, com um arranjo surpreendente, o tango “Volver” (Gardel / Le Pera), reforçando sua consciente ligação e admiração pela música da América Latina, para a qual já rendeu valioso tributo no disco “Fina Estampa” (1994).
Caetano estava solto e à vontade em cena, sendo que desta vez não despencou do palco como em seu último show em Brasília. Durante a apresentação trocou pouquíssimas palavras com o público, dizendo apenas que estava feliz em poder voltar a Florianópolis, como que por alusão ao episódio fatídico quando teve problemas com a polícia durante a turnê dos Doces Bárbaros na cidade, que culminou com a prisão de Gilberto Gil. No entanto, o velho baiano alegrou o público que, apesar dos altos preços de ingresso, lotou o show e cantou alguns de seus antigos sucessos como “Trem das Cores”, “Irene”, “Não Identificado”, “Sou Neguinha” e “Força Estranha”.

Festivais na Lagoa

Há tempos a Lagoa da Conceição, por todos os seus atributos, merece sediar um evento como um festival de música e cultura. Público e paisagem não faltariam, a questão fica mais em função da falta de iniciativa pública e privada. Tomando o exemplo da falta de estrutura da Praça Bento Silvério para abrigar um festival de maior peso, com atrações locais, nacionais e porque não, também internacionais.
A junção do nosso cartão postal com um grande festival seria uma fórmula de sucesso, que além de beneficiar moradores, turistas e comerciantes, abriria um novo espaço de diálogo cultural entre artistas catarinenses e de outros estados e países. Também é através de eventos deste tipo que uma banda local pode ter maior facilidade em projetar-se nacionalmente, o que aliás, estamos precisando, pois não há nenhuma banda catarinense no cenário nacional, não por falta de talento, mas sim por falta de projeção.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Bolachas Eternas

O disco de vinil ou LP (Long Play), desacreditado e esquecido desde o aparecimento das mídias de gravação iniciadas com o CD, volta agora com força total. Por incrível que pareça, o CD teve sua morte praticamente decretada após somente 20 anos de existência. As lojas do ramo estão fechando ou migrando para a comercialização exclusiva de DVD's, as gravadoras amargam prejuízos e já não sabem mais o que fazer para conter os downloads na internet. No entanto, o velho LP sobreviveu a todas estas décadas e hoje em dia parece ainda atual. Claro que não para todos os públicos, mas sim para os colecionadores veteranos ou iniciantes, além de consumidores de novos lançamentos em vinil de artistas atuais na Europa e nos Estados Unidos.
Com a explosão do formato digital em mp3, o contato físico com o disco praticamente acabou, ou seja, fatores de elevado nível artístico como a produção das capas, hoje não são muito valorizados, sem falar nos encartes contendo toda ficha técnica e fotos, que também não despertam muito interesse nos ouvintes mais modernos e digitalizados.
O vinil está vivo para satisfazer aos ouvintes antenados nestes detalhes, e também para os que sentem falta deste tipo de contato mais físico e real com sua coleção. Falando das capas, muitas delas são verdadeiras obras de arte, a exemplo das criações do grande artista Elifas Andreato, que desenhou capas antológicas de discos da MPB nas décadas de 70 e 80.
O ouvinte e amante do vinil é aquele que dedica o momento a escutar um disco inteiro, sem ao mesmo tempo fazer algo que lhe tire a atenção sobre isto, a não ser que seja para apreciar a capa e o encarte. E claro, quando na companhia de outras pessoas, é sagrada a hora de comentar o disco depois de escutá-lo. Percebe-se então a diferença para o ouvinte exclusivo do mp3, que liga seu ipod enquanto faz qualquer outro tipo de atividade.
Como no Brasil a volta da comercialização dos discos de vinil ainda é muito restrita (ao contrário do caso europeu), para entrar neste universo é preciso se aventurar por sebos empoeirados e garimpar algumas preciosidades ou então achar discos daquela banda que marcou sua adolescência e você nem se lembrava mais. Como muitos títulos não foram reeditados em CD ou então tiveram uma tiragem muito baixa, alguns LP's são os únicos exemplares de determinados títulos, o que pode fazer com que o preço chegue nas alturas e mesmo assim ainda sejam disputados a tapa pelos colecionadores mais fanáticos.
Para continuar esta conversa, se você também é um entusiasta do vinil ou apenas um interessado no assunto, entre em contato e mande um comentário com sua opinião, sugestão ou dúvida.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Carrah Flahive: Entre o Jazz e a MPB


Nascida em uma família de músicos, Carrah Flahive descobriu o seu amor pelo jazz logo cedo, sentada ao piano ouvindo seus tios tocarem durante as reuniões familiares. Durante seus estudos na Los Angeles County High School for Arts, optou pela carreira em jazz e música contemporânea. Versatilidade, treinamento clássico, notável musicalidade e refinada técnica vocal fazem com que Carrah atue de forma sublime entre os mais variados estilos musicais, da música eletrônica brasileira do grupo D'Água aos cantos litúrgicos nas catedrais do centro de Los Angeles. Formada pela Los Angeles Music Academy, teve o privilégio de estudar com grandes músicos como Mike Shapiro, Toni Inzalaco, Debi Nova, Cathy Segal-Garcia, Diana Booker e sua grande guia e fonte de inspiração, a excelente cantora Kevyn Lettau.
Atualmente radicada no Brasil, a cantora norte-americana desenvolve um projeto musical inovador ao lado de Fabiano de Castro (piano), Andre Bordinhon (guitarra), Sidiel Vieira (contra-baixo acústico) e Bruno Iasi (bateria). O trabalho consiste na apresentação de releituras com arranjos estilizados e contemporâneos para as composições dos artistas mineiros que marcaram a história da MPB através do famoso movimento musical conhecido como Clube da Esquina, nos anos 60 e 70. Serão, portanto, interpretadas as canções de artistas como Milton Nascimento, Lô Borges, Márcio Borges, Beto Guedes, Tavinho Moura, Toninho Horta e Fernando Brant.
O projeto é como se fosse uma troca de influências, pois se Milton Nascimento foi muito influenciado em sua formação pelos grandes músicos do jazz norte-americano e outros artistas como os Beatles, The Platters e Bob Dylan, agora Carrah devolve ao Brasil, em forma de homenagem, toda influência que teve da música brasileira, em especial destes grandes compositores que criaram o Clube da Esquina.

Carrah se apresenta em algumas temporadas na noite paulistana e também já se apresentou em Florianópolis em 2008. Com este novo projeto ambiciona excursionar pelas demais capitais do sul do país e também pelo sudeste e nordeste.

Para conferir o trabalho desta jovem e promissora cantora, acessem: www.myspace.com/carrahflahive