segunda-feira, 13 de julho de 2009

Velho novo baiano na Ilha

“Eu sou apenas um velho baiano, um fulano, um Caetano, um mano qualquer, vou contra a via, canto contra a melodia, nado contra a maré”. Não pode haver definição mais atual como a que o próprio Caetano usou para si na letra de “Branquinha”, do álbum “Estrangeiro” (1989). Sim, pois o artista já sexagenário soa bastante contemporâneo em seus últimos trabalhos, confirmando sua característica de sempre compor em sintonia com seu tempo, sempre disposto e aberto ao experimentalismo em todas as fases de sua carreira, mesmo que muitas vezes isso signifique nadar contra a maré.
Em seus últimos discos, “Cê” (2006) e o mais recente “Zii e Zie” (2008), ousou reunir três jovens músicos para gravar numa sonoridade mais crua e pesada, apenas com baixo, bateria e guitarra muitas vezes distorcida num cruzamento de rock e samba. As músicas destes discos não nascem a partir de melodias redondas, como tantas que Caetano possui, mas sim de composições mais ásperas e dissonantes, que seu vigoroso trio deixa ainda mais rudes e cheias de atitude. As músicas de “Zii e Zie” foram a base para o ótimo show em Florianópolis na última quarta-feira (08/07), com temas antagônicos como “Perdeu”, sobre a criança favelada marcada pela violência do tráfico, e “Falso Leblon”, sobre a menina de classe rica da zona sul carioca que consome drogas, ou então temas políticos como “Base de Guantánamo”, uma crítica sobre a ingerência norte-americana em Cuba, composta antes do início do desmantelamento da base por Barack Obama. Caetano também incluiu no repertório, com um arranjo surpreendente, o tango “Volver” (Gardel / Le Pera), reforçando sua consciente ligação e admiração pela música da América Latina, para a qual já rendeu valioso tributo no disco “Fina Estampa” (1994).
Caetano estava solto e à vontade em cena, sendo que desta vez não despencou do palco como em seu último show em Brasília. Durante a apresentação trocou pouquíssimas palavras com o público, dizendo apenas que estava feliz em poder voltar a Florianópolis, como que por alusão ao episódio fatídico quando teve problemas com a polícia durante a turnê dos Doces Bárbaros na cidade, que culminou com a prisão de Gilberto Gil. No entanto, o velho baiano alegrou o público que, apesar dos altos preços de ingresso, lotou o show e cantou alguns de seus antigos sucessos como “Trem das Cores”, “Irene”, “Não Identificado”, “Sou Neguinha” e “Força Estranha”.

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