sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O poder de escolha do público

A música popular constituía-se como representação originalmente popular, ou seja, criada e exercida pelo próprio povo, até as primeiras décadas do século XX. Foi a partir daí, com o advento dos primeiros meios de gravação em cilindro e logo depois em discos, que as expressões e movimentos musicais passaram a ser comercializados e, portanto, direcionados como um negócio, perdendo o caráter estritamente popular de criação e audiência.
Não que esta mudança tenha tirado a qualidade e a autenticidade dos artistas e suas composições, mas é evidente que a partir deste ponto a produção musical passou a ser marcada por questões comerciais e direcionada ao público em forma de consumidores, e não como foco cultural da música popular.
Estava então iniciado o longo período de domínio da produção musical pelas grandes gravadoras, o que em inúmeros casos foi de resultado positivo, haja vista a enorme quantidade de grandes compositores, músicos e intérpretes que marcaram a história da MPB através das décadas. Porém, este viés comercial apregoado pelas gravadoras tornou-se insustentável a partir de meados da década de 80, culminando na exploração comercial sufocante através de produtos musicais de apelo excessivo como o axé, falsos sertanejos, grupos de pagode e outros oportunismos musicais que adentraram pelos anos 90 até os dias atuais, salvo algumas boas exceções.
Como tudo que é exaustivamente explorado se esgota, o que estamos vendo nestes últimos anos é a derrocada das grandes gravadoras, que perdem cada vez mais mercado para as novas alternativas independentes de produção e divulgação musical. Portanto, o cenário aos poucos se inverte, sendo que o público volta a ter a capacidade de discernir e fazer suas próprias escolhas dentre inúmeras opções musicais, multiplicadas pela ferramenta digital da internet, livrando-se aos poucos do dirigismo de consumo ditado pelas gravadoras.
A questão agora é a recuperação deste discernimento próprio do público, que esteve encoberto pela manipulação de suas escolhas por décadas. Apesar da liberdade, esta tarefa não é fácil, pois ao mesmo tempo em que se multiplicaram os meios de produção e divulgação, também cresceu o número de aventureiros digitais sem qualidade artística.
A nova “democracia musical” atravessa um período de adaptação, e se formos tomar como paralelo a democracia política, veremos que o processo é lento, pois já se vão 20 anos de liberdade política e ainda assim topamos com a influência do que há de mais retrógrado, o patriarcalismo oligarca escondido atrás de bigodes tintos que seguem dando as cartas no país.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Les Paul, o pioneiro da guitarra

Morreu ontem, aos 94 anos, um dos mais influentes músicos do século XX, o guitarrista e criador de técnicas e instrumentos musicais, Les Paul.
A história do modelo de guitarra mundialmente conhecido, a Gibson Les Paul, surge a partir da criatividade incansável deste músico que desde a juventude fabricava seus próprios instrumentos, experimentando novas sonoridades e timbres. A consolidação da guitarra elétrica na trajetória musical do século passado é, portanto, estritamente ligada às invenções de Les Paul.
Nomes como Jimmy Page, Jeff Beck, George Harrison, Gary Moore, Pete Townshend e David Gilmour, ao explorarem a sonoridade do instrumento de Les Paul, escreveram passagens memoráveis da história do rock e, sem dúvida, muitos nomes atuais continuarão escrevendo outros capítulos através das lendárias guitarras de Les Paul.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Shows como artigo de luxo

Impossível não notar e se impressionar com a escalada dos preços de ingressos para shows de artistas populares e outras atrações culturais em Florianópolis. Isto é uma prova de que a cultura, ao invés de se tornar cada vez mais democratizada e acessível, parece hoje um bem de consumo de luxo, destinado a uma pequena elite que se dispõe a pagar entradas de valores exorbitantes, excluindo e privando todas as outras camadas da sociedade.
Apenas para ilustrar o assunto em questão, atualmente a maioria dos shows nacionais tem valor de ingresso acima dos R$ 100,00, sendo que muitos deles chegam a quase R$ 200,00.
Sabemos que são altos os custos de produção de apresentações como estas e que os produtores se acotovelam e trabalham duro na busca de apoiadores, patrocinadores e leis de incentivo que viabilizem os eventos. Muitos shows nacionais, entretanto, já chegam com grande parte dos custos fechados por patrocínios de turnês que cobrem todo país, alguns até viabilizados através de leis de incentivo, mas mesmo assim o valor do ingresso é altíssimo. Será que não há um abuso na prática destes valores, gerando uma falta de comprometimento com o desenvolvimento da cultura na cidade?
Alguns pontos de justificativa para esta questão são apontados pelos produtores como a falta de salas de maior capacidade, a defasagem gerada pela concessão de meia-entrada e os já citados custos de produção. Olhando para estes argumentos, vemos que Florianópolis de fato carece de salas maiores (ao menos 3 mil pessoas), o que possibilitaria a divisão da platéia em setores com diferentes preços, proporcionando ingressos de todos os valores de acordo com a localização. Com relação à meia-entrada, os produtores alegam grande perda de margem e por isso, o aumento dos preços. Porém, tomando como exemplo um show que custe R$ 180,00, a meia sairia por R$ 90,00, preço ainda extremamente incompatível com a capacidade do público estudante e idoso, além de ser também inviável para a maioria do público que não está beneficiado pela meia-entrada.
Seria até compreensível se valores de ingresso como estes fossem para uma atração erudita como um ballet russo ou artistas de peso mundial, mas estamos falando de artistas de música popular brasileira, que constroem nossa cultura e representam toda a sociedade. Estes preços de entrada acabam por excluir a maior parte desta mesma sociedade, que não pode se enxergar sob forma de arte popular e, portanto, pública.

sábado, 8 de agosto de 2009

Blues até na sarjeta

NUNO MINDELIS - Foto: Emerson Sodré
O bluseiro Nuno Mindelis tocou no John Bull Pub nesta última quarta-feira (05/08) levantando o público com suas já conhecidas performances de guitarra. O músico, nascido em Cabinda (Angola) e radicado no Brasil desde 1976, é um dos principais nomes do blues nacional e também é reconhecido internacionalmente. O guitarrista apresentou músicas de toda carreira, mas o destaque ficou para os temas de seus dois melhores discos, o “Texas Bound” (1996) e o “Blues on the Outside” (2000), ambos gravados com a Double Trouble, banda que acompanhava o grande guitarrista texano Stevie Ray Vaughan. No repertório também não faltaram as clássicas “Wind Cries Mary” e “Hey Joe”, imortalizadas por Jimmi Hendrix.
Numa noite em que o frio deu uma trégua, houve até solos de guitarra pela avenida das rendeiras, quando no meio do show, Nuno desceu do palco, atravessou as mesas e saiu pra tocar na calçada. O blues tem dessas!

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Noite de gigantes


Em noite especial, pelo privilégio de ver reunidos músicos de calibre internacional como Alegre Corrêa e Guinha Ramires sob o carisma e talento do anfitrião Alessandro Kramer, o Teatro Álvaro de Carvalho foi palco para estes três gigantes da musica instrumental brasileira nesta última sexta-feira (31/07/09).
Num show descontraído e musicalmente denso, Kramer tocou composições próprias e também de seus parceiros de palco. Destaque ainda para uma composição de Luiz Carlos Borges, acordeonista gaúcho que foi sua maior influência desde a infância.
A música de Alessandro Kramer é uma síntese de ritmos que irradiam e se convergem pela sua fronteira inicial que parte do Rio Grande do Sul e abrange ainda a região argentina, uruguaia e paraguaia, sem contar as suas influências posteriores que lançam atenções aos ritmos brasileiros de outras regiões, notadas pela presença de aspectos estéticos de Tom Jobim e Hermeto Pascoal, por exemplo.
O resultado desta síntese rítmica é uma densa e profunda sonoridade que evoca a milonga, o tango, o chamamé, o xote, o jazz e tudo mais que possa compreender esta formação musical local que se expande de tal forma que passa a assumir uma face universal.