terça-feira, 6 de outubro de 2009

Si Se Calla el Cantor, Calla la Vida

Mercedes Sosa era uma artista rara, principalmente em relação às últimas duas décadas, em que a canção perdeu seu caráter de protesto, contestação e transformação social. Aliando suas raízes folclóricas, sua intensa musicalidade, o canto aguerrido e a atitude de luta e representação dos povos latino-americanos, Mercedes transcendeu o limite de ser simplesmente uma cantora, passando a ser um ícone da cultura e história da América Latina.

Já na edição de seus dois primeiros discos, deixava claro que não estava cantando sem propósito, pelo que se comprova de imediato nos títulos dos referidos discos: "Canciones con Fundamento" (1965) e "Yo No Canto Por Cantar" (1966), que trazem composições que revelam o íntimo da idiossincrasia e dos anseios de liberdade do homem trabalhador do campo, das províncias de substrato indígena do noroeste da Argentina como Jujuy, Salta, Catamarca, Santiago del Estero, Chaco e sua província natal, Tucumán.

O canto de Mercedes Sosa espalhou-se desta região para todo o continente, pelo fato de os povos dos demais países notarem identificação nas mesmas causas e anseios que se arrolavam em suas canções, ou seja, a mesma injustiça e opressão presente em sua região de origem, era comum aos outros países, justamente pelos seus processos históricos tão semelhantes.

Vieram então os anos mais sombrios, com a imposição de ditaduras pela América Latina. Em 1979, no auge da repressão na Argentina, foi presa durante uma apresentação na cidade de La Plata e exilada do país.

Após seu regresso em 1982 e terminada a ditadura em 1983, ainda que houvesse sido reestabelecida a democracia, Mercedes nunca deixou de evidenciar as questões políticas, sociais e de direitos humanos que marcaram cada década através de sua música.
O senso de unidade e integração da América Latina sempre esteve presente em sua vida e trabalho, pois desde o início gravava compositores de diversos países como Violeta Parra (Chile), Alfredo Zitarrosa (Uruguay), Daniel Viglietti (Uruguay), Sílvio Rodríguez (Cuba), Pablo Milanés (Cuba), sem contar os vários compositores de seu país como Atahualpa Yupanqui, Ariel Ramírez, Félix Luna, Gustavo Leguizamón, Horácio Guarany, León Gieco, Victor Heredia, Teresa Parodi, Tejada Gomez, Cesar Isella e tantos outros autores argentinos. A partir dos anos 80, incorporou ao seu repertório algumas composições de artistas de outras vertentes não folclóricas como Charly García e Fito Páez, além de gravar com artistas ligados ao tango, como Rodolfo Mederos e Leopoldo Federico. Ficava evidente que Mercedes já postulava uma abrangência e versatilidade de repertório e parcerias que a condicionasse a dialogar com outros gêneros musicais de maneira íntima e original em sua posição de grande intérprete.

Em relação ao Brasil, sua aproximação com artistas brasileiros foi pioneira e de grande valor para que as barreiras culturais insólitas que nos separam até hoje dos países vizinhos começassem a desvelar uma fresta pela qual fosse possível uma importante troca cultural. Fruto desta iniciativa foram trabalhos conjuntos com Milton Nascimento, Chico Buarque, Gal Costa, Fagner, Beth Carvalho, Caetano Veloso, Vitor Ramil, Luis Carlos Borges e outros. Ainda assim, infelizmente, o Brasil aprisiona-se na grandeza da própria música brasileira e insiste em voltar-se pra dentro ou para a música estrangeira cantada somente em inglês.

Especificamente como cantora, foi brilhante, pela voz imensa, profunda e a grande carga emotiva com que interpretava. Foi reconhecida internacionalmente, realizando turnês pelos mais diversos países, chegando aos palcos mais concorridos do mundo, como o Lincoln Center (EUA), Carnegie Hall (EUA), Morgador de Paris e até no Vaticano.

O legado de Mercedes é de grande importância e ultrapassa a simples herança do que foi uma grande cantora. Deixa em nossa memória o poder de mobilização e atitude capazes de serem expressos na música, coisa que poucos artistas atuais conseguem ou pretendem conciliar em seus trabalhos. O senso de justiça social, direitos humanos, integração dos povos e a luta pela liberdade foram a bandeira sobre sua música. Certamente seu desejo é que de agora em diante possamos contar com sucessores que não a deixem parar de tremular.

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