domingo, 28 de junho de 2009

Entre fama e morfina


Cabelo black power, calça boca de sino, um talento precoce destacado entre cinco irmãos que naturalmente se tornam seus coadjuvantes, uma voz que herda toda intensidade da música negra norte-americana, do gospel ao rhythm & blues. Anos depois, grandes discos solo pela célebre gravadora Motown como Ben (1972), passando pelo primeiro disco da fase mais adulta Off the Wall (1979), até chegar ao ápice com Thriller (1982), sua coroação. Um artista completo que aliava ao canto e à composição, uma dança de movimentos espetaculares, precisos, onde todo o corpo tinha uma função rítmica. Sua música já era uma nova síntese de estilos, que incorporava soul music, R&B, disco e funk. Mas foi a partir de Bad (1987) que toda esta síntese fundiu-se sob a égide do pop, justamente este o fator que aglutinou toda sua carreira artística para o início do desvirtuamento musical, com algumas exceções ao longo dos anos seguintes. Porém, nenhuma perda de virtudes comparada com sua decadência como ser humano, que ultrapassou todos os limites do possível, criando uma vida reclusa e ilusória num mundo de particularidades excêntricas. Seja qual for a causa física de sua morte, Michael Jackson já estava sepultado em seu universo próprio.
No entanto, as tragédias pessoais não poderão prevalecer sobre o que representou artisticamente a vida deste gênio da música, que revolucionou os padrões, influenciou diversos outros artistas e fez com que não sentíssemos sua música só através dos ouvidos, mas também pelos olhos. Foi ele o primeiro artista em que havia a real necessidade de também vê-lo além de ouví-lo. É, portanto, por estes motivos e muitos outros que seu trono será sempre cativo. Michael se vai mas sua música segue.

sábado, 27 de junho de 2009

Cantares de Portugal: Fado com vista para a Lagoa

Resgatando a tradição do fado, a cantora Maria Isilda apresenta um repertório de canções marcantes deste gênero, acompanhada por violão, guitarra portuguesa e teclado no Bar Ponto de Vista em shows que iniciaram em junho e deverão ocorrer mensalmente.
Maria Isilda nasceu em Angola e mora no Brasil desde 1976, tendo vivido inicialmente em Minas Gerais, depois no Paraná e agora em Santa Catarina, na Lagoa da Conceição. Advinda de uma família musical, iniciou seus estudos em canto lírico ainda em Angola, e após viver por um ano em Portugal, continuou sua trajetória aqui no Brasil, onde atualmente é professora de canto lírico e popular.
O fado sempre esteve presente em sua formação musical, desde criança quando ouvia seu pai cantar. Ainda na área da música popular, teve grande influência da música brasileira, portuguesa e cabo-verdiana.
A cantora Teresa Salgueiro, que fazia parte do aclamado conjunto português Madredeus, foi uma grande referência para Maria Isilda, justamente pelo fato de Teresa também ter formação lírica e levar esta virtude aos vocais característicos do Madredeus. E obviamente, ela cita também a influência imprescindível de Amália Rodrigues, não deixando de lado as cantoras mais recentes como Mariza e Ana Moura.
No repertório apresentado no Ponto de Vista não faltam fados clássicos como "Fadinho Serrano", "Ai, Mouraria", "Nem às Parades Confesso", "Coimbra", "Estranha Forma de Vida", "Marujo Português", "Gaivota", "Tudo Isto é Fado" e "Lisboa Antiga".

Sr. Brasil: Boldrin tirando o Brasil da gaveta


O programa Sr. Brasil, como já traz no nome, é o mais brasileiro da televisão. Um programa com cheiro de mato, que entre um poema e um "causo" contado por Rolandro Boldrin, traz artistas de todas as regiões do país, com seus diferentes sotaques e diversa musicalidade. Artistas estes, em sua maioria sem espaço na mídia convencional, que retratam o Brasil como ele é, assim simples, caboclo, autêntico, cheio de poesia e sentimentalismo em letras e acordes que só se escutam todas as terças, às 22 horas pela TV Cultura.

Por tudo isso, podemos até nos surpreender com toda riqueza musical brasileira, muitas vezes escondida pelos rincões remotos, ao longo de estradas de chão que rasgam nosso infinito sertão. Pode ser através do som de uma gaita do sul, uma viola do centro-oeste ou uma zabumba do nordeste, tudo isto é Brasil. Precisamos sim é redescobrir cada pedaço disto, tirando o Brasil da gaveta, como Boldrin brilhantemente faz em seu programa, mostrando um país que depois de 500 anos de embates, confluências e fusões culturais, hoje resulta numa pessoa de respeito, a qual queremos reverenciar como Sr. Brasil.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Ares contemporâneos ao velho fado

Na fronteira entre o tradicionalismo e a contemporaneidade de gêneros tão antigos como o fado, é preciso estar atento para diferenciar os verdadeiros artistas, que conduzem dignamente a música em seu avanço por mais um século, dos grupos que apenas querem causar um impacto instantâneo através de remodelações musicais de alvo puramente comercial. António Zambujo é um fadista do nosso tempo, que traz no sangue e na formação toda a tradição, mas que nos devolve a música em estado de frescor propício a este início de século.
Nascido em Beja, no ano de 1975, cresceu ouvindo o fado e os cantos alentejanos. Depois mudou-se para Lisboa, onde desenvolveu sua carreira artística. Foi bastante influenciado pela música brasileira, de que aliás é grande admirador e entusiasta, principalmente da música de Ivan Lins, Caetano Veloso, João Gilberto, entre outros.
Em seus 3 discos lançados, percebe-se que Zambujo prima pela coesão e limpidez musical, conservando o lirismo característico do fado, mas ao mesmo tempo acrescentando uma espécie de lubrificação ao gênero. Aos intrumentos da formação tradicional, como o violão e a guitarra portuguesa, adicionou-se em algumas faixas o contra-baixo acústico e o cello, o que pode causar receio em alguns puristas. No entanto, o resultado é incontestávelmente interessante.
Myspace do artista: www.myspace.com/antoniozambujo

segunda-feira, 8 de junho de 2009

13° FAM: Um buraco na fechadura dos vizinhos


Entre 05 e 12 de junho ocorreu o já tradicional Florianópolis Audiovisual do Mercosul, festival que reúne produções dos países da região. Com uma extensa programação, incluindo fóruns, mostra de curtas, programação infantil e exibição de longas, esta décima terceira edição foi uma das melhores, a começar pela mudança da sede do teatro do CIC para o Centro de Eventos da UFSC, o que melhorou muito o acesso do público pela estrutura e tamanho da sala. Como de costume, o FAM caracteriza-se como um evento cultural bastante democrático e que contempla a diversidade cultural dos países em questão.
O festival cumpre um papel muito importante dentro dos esforços de integração cultural do Mercosul, pois é uma espécie de buraco na fechadura dos países vizinhos, através do qual temos a rara oportunidade de conhecer as produções de países como Argentina, Uruguai e Chile, que infelizmente passam à margem da programação comercial de cinema. A produção audiovisual é um dos principais meios para firmar a identidade cultural que nos é complementar e muitas vezes comum entre os países latino-americanos.
Para Florianópolis, um evento cultural deste tipo só engrandece a cidade, ajudando a reduzir o estigma de que as relações com os países vizinhos fiquem apenas no âmbito turístico e também para que, finalmente, caiam as barreiras que nos separam dos demais países, seja por questões de preconceito, idioma ou puro desconhecimento destas outras culturas.